O Brasil, potência regional e membro fundador da ONU e do G20, poderia liderar a articulação. Mas preferiu agir como cabo eleitoral. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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Há tempos a ONU se perdeu no personagem. Virou cabide de empregos de diplomatas e amigos de presidentes, reis e ditadores. Tornou-se o ambiente perfeito para países tentarem impor regras enquanto financiam guerras, proxies e redes de influência. As agências se multiplicam em agendas ideológicas, e o multilateralismo virou a arte de produzir declarações grandiosas para mascarar a impotência estratégica.

Mas não porque a ONU virou um palanque ideológico é que deixou de ter relevância. Regimes autoritários que aprenderam a usar a gramática do sistema internacional contra o próprio sistema fazem da ONU uma plataforma ainda legítima e simbólica para atuar segundo os seus interesses. Em política internacional, quem controla a linguagem prepara o terreno para controlar a decisão.

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Assim fez a China no caso da covid. O regime segurou a OMS até Pequim indicar cada nome dos “inspetores” e direcionar as “investigações” que chegaram a lugar algum.

Nesse sentido, a sucessão do português António Guterres não é apenas mais uma disputa diplomática, mas uma janela rara de projeção. Pela lógica da rotação regional, espera-se que o próximo ocupante do cargo venha da América Latina.

O Brasil, como potência regional, membro fundador da ONU e membro do G20, deveria estar no centro dessa articulação. Em vez disso, escolheu ser cabo eleitoral. O governo brasileiro decidiu apoiar a candidatura da chilena Michelle Bachelet, que já não conta sequer com o apoio de seu próprio país.

Por que diabos o Brasil, diante da oportunidade histórica de ocupar o cargo mais visível do multilateralismo, abdicou de apresentar um nome próprio? A resposta pode residir em duas hipóteses incômodas.

Para mim, a primeira é o personalismo. Luiz Inácio Lula da Silva sempre cultivou uma visão da política externa como extensão de sua biografia, e não como instrumento de Estado. Em sua imaginação política, a diplomacia serve para projetar o líder, no caso, ele próprio, não a instituição.

Sob essa ótica, nenhum brasileiro estaria à altura de ser secretário-geral. Exceto ele mesmo, é claro. Quando a política externa é confundida com a vaidade do governante, o país perde a capacidade de formar sucessores e consolidar influência. O Brasil deixa de pensar como Estado e passa a agir como uma versão superlativa do PT e sua lulodependência.

A segunda hipótese é a falência de quadros. Ocupar a Secretaria-Geral da ONU exige trânsito, capacidade de dialogar com Washington, Pequim, Bruxelas e Nova Délhi sem o peso de alinhamentos ideológicos automáticos.

O Brasil fala em multipolaridade, mas age como país de nicho. Escolheu um lado no mundo que tem como referência China, Rússia, Irã e um monte de cacarecos autoritários e até grupos extremistas.

O Brasil e muitos brasileiros gostam de se imaginar (e até mesmo de afirmar) como uma potência global. Mas confundem tamanho com relevância e capacidade de se projetar

O caso da ONU deveria funcionar como uma martelada no espelho em que o periquito se vê como águia.

A ironia é ainda mais brutal quando nos lembramos de que a diplomacia lulista prega a reforma do Conselho de Segurança, mas não consegue formular uma candidatura própria à Secretaria-Geral.

A eleição na ONU não salvará o multilateralismo de sua decadência. Mas serviria para mostrar que o Brasil ainda sabe jogar grande. Ao abrir mão da disputa, o país não apenas perdeu uma chance; confirmou um diagnóstico.

Talvez o mundo não tenha diminuído para o Brasil. O Brasil é que diminuiu dentro do mundo.

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