Sem virtude e coragem, a política se rende ao medo, não ao bem comum. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

De tempos em tempos, as nações são abaladas pela mesma convulsão: a eleição daquele que guiará o destino de seu povo. É um momento vertiginoso, marcado por movimentos calculados, pactos velados e estratégias ocultas. Mas, acima de tudo, é um momento de julgamento, no qual as pessoas — queiram ou não — se veem refletidas no espelho da urna e decidem, com seu voto, até onde ousam almejar. Elas escolhem o que acreditam merecer e o ideal ao qual aspiram.

Contudo, na prática, muito ainda deixa a desejar e, como alertou Nicolás Gómez Dávila, a realidade é que “neste século não devemos esperar a vitória de nenhum partido — nenhum partido — mas sim a derrota do partido adversário” (Gómez Dávila, N.; “Scholia to an Implicit Text I”).

Recomendamos para você

É como se o povo não acreditasse merecer o melhor e, em vez de escolher um lado, escolhesse o outro. Que paradoxo ver como a democracia, para muitos, se tornou uma renúncia ao ideal, e cada dia de eleição, uma renovação dessa renúncia avassaladora, porém inevitável, refletindo a ferida da alma que, no fundo, aspirando a grandes coisas, se contentou com as migalhas mais insignificantes.

Sinceramente, que futuro pode ser construído sobre a lógica da exclusão, sobre o medo do abismo em vez da esperança no topo? Como podemos afirmar que ainda somos livres se nossa liberdade se limita a escolher um nome em listas que não nos representam, a marcar uma caixinha com desconfiança, até mesmo com ressentimento e descontentamento?

Hoje, em muitas nações, especialmente naquelas que ainda conservam traços de uma herança e cultura cristãs, é quase impossível encontrar um candidato que inspire verdadeira confiança, que nos permita votar de todo o coração e com a consciência tranquila

A cena se repete com uma previsibilidade desgastada. A cada quatro, cinco ou seis anos, dependendo do país, chega o momento que deveria ser solene, mas que se assemelha mais a um ritual um tanto cínico: a eleição do próximo chefe do Poder Executivo, o presidente. E, diante do desfile de rostos familiares, manobras políticas recicladas e promessas duvidosas, muitos, com certo ar de resignação, escondem-se atrás da desculpa já automática: “Não há outras opções”. Não há outros candidatos. Não há para onde olhar.

E eles têm razão. Não há nada mais a acrescentar. Mas também é verdade que não exigimos mais. Não treinamos mais. Não semeamos mais sementes.

Hoje, em muitas nações, especialmente naquelas que ainda conservam traços de uma herança e cultura cristãs, é quase impossível encontrar um candidato que inspire confiança genuína, alguém que nos permita votar de todo o coração e com a consciência tranquila. Aqueles que compreendem a verdadeira antropologia da humanidade e a incorporam plenamente em sua visão para o país e em todas as esferas da vida social — política, educação, economia e cultura — são raros nas urnas e nas campanhas eleitorais. Aqueles que defendem firmemente — sem medo dos outros ou covardia — a verdade e a beleza são raros.

Precisamos de alguém para quem a sã doutrina e o Evangelho não sejam um disfarce de campanha, mas sim o guia e o roteiro de sua vida. Alguém cuja presença nos permita dizer, sem reservas: “Ele me representa”. Não apenas porque defende e honra o bem comum e a justiça, mas porque jamais nos obrigaria a comprometer nossos princípios ou sacrificar nossos valores mais sagrados em nome do pragmatismo político. Em suma, precisamos de um herói neste mundo de vigaristas.

No mundo político, os heróis serão aqueles cuja característica definidora é a virtude e o caráter; aqueles que governam por meio de ações, não de retórica; por meio da coerência, não da popularidade. Serão líderes que inspiram e cultivam a fé, a esperança e a caridade. Aqueles que encontram, na expressão pública e consistente de sua fé, a bandeira pela qual estão dispostos a dar a vida, e não meramente um meio de atrair votos de uma facção política específica. Os heróis serão aqueles que buscam evangelizar a política, não politizar o Evangelho.

Precisamos de alguém para quem a doutrina correta e o Evangelho não sejam um disfarce para sua campanha, mas sim o guia e o mapa de sua vida

G. K. Chesterton pressentiu isso quando disse: “Cada época é salva por um pequeno grupo de homens que têm a coragem de estar em desacordo com os tempos”. Esses homens tão necessários são aqueles por quem as nações clamam hoje, aqueles que as pessoas esperam, aqueles que os governos anseiam. Homens e mulheres que, tendo conhecido a verdade, estão dispostos a morrer por ela. Precisamos de homens para quem a injustiça é intolerável, cujas almas são transpassadas pelo sofrimento alheio como uma espada, impedindo-os de viver indiferentes como se nada estivesse errado.

Precisamos daqueles que encontraram, na generosa oferta de si mesmos, a face do chamado divino. Como disse a santa colombiana Madre Laura: “Deus não carece de meios”. Ele chama. Ele sempre chama. E espera, paciente e expectante, pela resposta.

Pode parecer ambicioso — até um pouco temerário — pensar que uma pessoa possa ser chamada a dedicar-se ao serviço por meio da política. Mas a história confirma: há santos que governaram com sabedoria, há mártires que percorreram os corredores do poder sem vacilar, há homens e mulheres que fizeram do governo um altar sobre o qual ofereceram suas vidas. Se o Reino de Cristo deve expandir-se no mundo, deve fazê-lo também nos parlamentos, nos ministérios e nas praças públicas. O Sagrado Coração de Jesus exige isso.

Qual será a nossa resposta?

Muitos são chamados. E vários já, como Isaías, quando ouviu a voz de Deus perguntando: “A quem enviarei?”, começaram a responder generosamente: “Eis-me aqui, envia-me a mim”. Corajosos e firmes, esses homens e mulheres, como ouro refinado no fogo, estão se preparando, forjando-se no dever, temperando-se na virtude, lutando em seu próprio campo pelo bem de sua pátria.

Eles são os sentinelas da aurora. Movimentos inteiros, homens e mulheres resolutos, que se tornaram o sinal visível de que o horizonte se aproxima, de que não está longe o dia em que, numa cédula presidencial, veremos não apenas um rosto solitário e questionável, mas o eco vivo de inúmeros homens e mulheres determinados que, movidos pelo anseio do Bem Supremo, se dedicaram ao serviço do bem comum; que, inflamados pelo desejo da pátria celestial, comprometeram-se corajosamente a restaurar a pátria terrena; que, em suma, sentiram-se chamados… e decidiram dar a vida pela Verdade.

Esses são os homens que ficarão para a história. Não por seus discursos, não por sua popularidade, mas porque construíram sobre a base existente e deixaram um impacto real em seu rastro.

E você e eu podemos fazer parte desse pequeno grupo de pessoas corajosas.

Porque — como disse Dr. Seuss com tanta magnanimidade — “A menos que alguém como você se importe de verdade, nada jamais vai mudar. Nunca” (Dr. Seuss; “O Lorax”).

©2026 Revista Suroeste. Publicado com permissão. Original em espanhol: El camino del héroe en un mundo de estafadores

VEJA TAMBÉM:

Azeite brasileiro é eleito o melhor do mundo em 2026