Controle internacional passou a exigir comunicação imediata de acidentes em usinas após silêncio do governo da URSS. (Foto: EFE/Maksym Kishka)

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O acidente de Chernobyl completa 40 anos neste domingo (26) com grande repercussão mundial devido às lembranças da maior tragédia da história em uma usina nuclear. A explosão do reator número 4 de Chernobyl, localizado na então União Soviética, atualmente na Ucrânia, aconteceu na madrugada de 26 de abril de 1986 na cidade de Pripyat e liberou na atmosfera até 200 toneladas de material radioativo, com uma potência equivalente entre 100 e 500 bombas atômicas de Hiroshima

Segundo a EFE, o resultado do desastre foi a contaminação de amplas áreas da Ucrânia, Belarus e Rússia, além de uma profunda comoção na Europa diante de um tipo de desastre que despertava grande ansiedade e não conhecia fronteiras.

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“Hoje vemos o inimigo. Podemos atirar nele, lançar bombas nele. Naquela época, só podíamos receber seus golpes em silêncio. Não era possível lutar contra ele”, disse à agência EFE Oleksandr Ryabeka, 66 anos, ao comparar o pior acidente nuclear da história com a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Ele atuou na região da tragédia em uma unidade da KGB, o serviço secreto da União Soviética, entre 2 de maio de 1986 e 16 de abril de 1987. A tarefa dele era evacuar civis, manter a ordem e coordenar os trabalhos de combate à radioatividade para limitar seus efeitos na população soviética. 

O veterano Viktor Bezruchko descarta retornar ao local para visitar a “cidade-fantasma” de Chernobyl após 40 anos, mas recordou que o sentimento à época era de cumprimento do trabalho designado pelo governo soviético.

“Ninguém tinha medo. Era simplesmente trabalho. Talvez um certo alarme, uma certa preocupação com o que aconteceria depois de trabalhar na zona de radiação. Mas fizemos nosso trabalho, isso foi tudo”, declarou à EFE.

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) estima que 4.000 pessoas perderam a vida em virtude da explosão no reator número 4 da usina de energia da cidade ucraniana, sendo que entre 30 e 50 pessoas foram contaminadas diretamente. A explosão formou uma nuvem de pó radioativo que atingiu o norte e o oeste da Europa, chegando até o leste dos Estados Unidos.

Maior controle para uso da energia nuclear após tragédia

Por outro lado, segundo a agência EFE, a energia nuclear passou a se destacar como uma fonte limpa e fornece cerca de 10% da eletricidade mundial, aproximadamente um quarto de toda a energia de baixo carbono. Quatro décadas após o desastre de Chernobyl, a energia nuclear está presente em 31 países, sendo que o controle rigoroso e a regulamentação internacional fazem parte do setor para evitar novas tragédias.

Poucos meses após o desastre, a comunidade internacional adotou tratados que continuam em vigor: a Convenção sobre a Pronta Notificação de Acidentes Nucleares e a Convenção sobre Assistência em Caso de Acidente Nuclear ou Emergência Radiológica.

Ambos os documentos estabeleceram, pela primeira vez, a obrigação de alertar de forma imediata e coordenar a ajuda internacional diante de qualquer incidente, evitando assim situações como a que ocorreu em Chernobyl, onde o silêncio da URSS durante quase três dias só foi quebrado após a detecção de radiação na Suécia.

Além disso, ainda de acordo com a EFE, as lições do acidente resultaram na Convenção sobre Segurança Nuclear (1994), que introduziu o princípio da revisão por pares. “[Esse sistema] institucionalizou a responsabilidade mútua entre os Estados que operam usinas nucleares", explicou a AIEA, reforçando a transparência e o controle mútuo.

Após o acidente em Chernobyl, a agência afirmou que houve “uma maior independência regulatória, um projeto aprimorado dos reatores, uma melhor preparação para emergências e um foco mais profundo na cultura de segurança.”

Zelensky critica incidentes com a Rússia na região da usina de Chernobyl

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, advertiu sobre os riscos de ataques russos na região de Chernobyl. Ele lembrou que um sarcófago foi construído sobre o reator destruído pela explosão para conter a radiação, e que mais de 40 países contribuíram para selá-lo a fim de prevenir novos desastres.

"Estas duas estruturas são as que protegem contra vazamentos de radiação e a contaminação. Sua manutenção e proteção beneficiam a todos. Mas, com sua guerra, a Rússia volta a colocar o mundo à beira de um desastre provocado pelo homem", afirmou o presidente ucraniano.

De acordo com ele, os drones Shahed sobrevoam permanentemente a antiga usina nuclear e que um deles se chocou contra o sarcófago no ano passado. "Há 40 anos, o mundo enfrentou um dos piores desastres nucleares: a explosão do quarto reator da usina nuclear de Chernobyl. Uma quantidade significativa de material radioativo foi liberada no meio ambiente. Centenas de milhares de pessoas vêm lidando com as consequências dessa tragédia há anos", alertou Zelensky.

Segundo a EFE, o papa Leão XIV afirmou que a tragédia nuclear permanece como uma advertência para a humanidade e pediu responsabilidade no uso da energia nuclear. "Desejo que em todos os níveis de decisão, prevaleçam sempre o discernimento e a responsabilidade, para que cada uso da energia atômica esteja a serviço da vida e da paz", declarou o pontífice.

Um estado de desconfiança perpétua entre a sociedade e o STF