A guerra no Oriente Médio é apontada como um dos principais pontos de atenção pelo Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central do Brasil. Em ata divulgada referente à reunião da semana anterior, o colegiado destacou o impacto do conflito sobre as expectativas de inflação e sinalizou a necessidade de cautela na condução da política monetária.
O analista de economia Fernando Nakagawa avaliou, no CNN 360°, que, diante desse cenário, a taxa Selic de apenas um dígito deve se tornar realidade somente na próxima década. A avaliação consolida um pessimismo crescente no mercado financeiro em relação à trajetória dos juros no país.
Segundo Nakagawa, o Banco Central está “muito preocupado com a guerra e suas consequências econômicas”. A principal incerteza reside na duração do conflito e nos seus efeitos sobre a economia global, especialmente por conta da alta do petróleo, descrito como “a principal commodity do planeta”.
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Publicado em 2026-05-05 18:32:11O analista explicou que o aumento do preço do petróleo desencadeia uma longa cadeia de elevações: primeiro nos combustíveis líquidos, depois nos custos de transporte, e em seguida na agricultura e na indústria, gerando sucessivas ondas inflacionárias. “Diante da incerteza sobre quanto vai aumentar dos preços na economia por causa da guerra, o Banco Central deixou muito claro que é preciso ter cautela neste momento”, afirmou.
Com isso, o mercado financeiro passou a apostar que o ciclo de cortes da Selic continuará sendo muito gradual, com reduções de 0,25 ponto percentual, e pode até ser encerrado mais cedo do que o previsto, caso a inflação se torne um problema mais agudo.
Mercado prevê juros acima de 10% até o fim da década
Nakagawa destacou uma mudança relevante registrada na pesquisa Focus divulgada na semana da análise. Pela primeira vez em muitos anos, o mercado financeiro passou a prever que, nos anos restantes desta década — 2026, 2027, 2028 e 2029 — o Brasil não terá mais uma taxa Selic de um dígito. “A expectativa subiu, estava em 9 e alguma coisa há muito tempo, e subiu para 10% pela primeira vez nesta semana”, explicou o analista.
O analista apontou como causa estrutural desse pessimismo os problemas crônicos nas contas públicas brasileiras. “A dívida pública só cresce ano após ano”, disse Nakagawa, acrescentando que, sem que essa questão seja resolvida, o Banco Central não terá espaço para cortar os juros.
A lógica, segundo ele, é simples: quando o governo gasta mais do que arrecada e precisa tomar dinheiro emprestado na economia, sobra menos recursos para o setor privado, que acaba pagando mais caro pelo crédito.
Eleições de 2026 sem perspectiva de mudança estrutural
Nakagawa acrescentou ainda um componente político à análise. Para ele, as eleições de 2026 representam, pela primeira vez em muito tempo, um pleito em que nenhum dos dois pré-candidatos mais bem posicionados parece trazer uma promessa de mudança estrutural na economia.
O analista citou Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) como os nomes mais bem colocados nas pesquisas. Sobre Lula, afirmou que “a gente já conhece como que trata as contas públicas” e que isso “tem gerado aumento da dívida”. Já sobre Flávio Bolsonaro, lembrou que uma reportagem da Folha de São Paulo indicou que ele poderia congelar aumentos reais em saúde, educação, salário mínimo e aposentadoria — proposta que foi negada pelo próprio pré-candidato nas redes sociais em menos de 24 horas. “O mercado financeiro entendeu isso como sendo que nenhum dos dois vai resolver a situação das contas públicas e, se ninguém resolve o problema das contas públicas, o juro seguirá sendo elevado“, concluiu Nakagawa.