Dom Francisco Lima Soares, bispo de Carolina (MA), é o único bispo na equipe que escreve a Análise de Conjuntura Social entregue na Assembleia Geral da CNBB. (Foto: Adielson Agrelos/CNBB Leste 1)

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Os bispos do Brasil já estão de volta a suas dioceses, depois de uma semana e meia em Aparecida, para a 62.ª Assembleia Geral da CNBB, realizada neste mês de abril após o cancelamento do evento no ano passado, decorrente do falecimento do papa Francisco e da convocação do conclave. E, ao longo dos últimos dias, pudemos ver que algumas coisas infelizmente não mudam: uma delas é o tom ideologicamente carregado das Análises de Conjuntura apresentadas aos bispos durante o evento.

A Análise de Conjuntura Social é um tijolo de 99 páginas. Praticamente todos os bispos com quem troquei mensagens logo na sequência da divulgação do documento me disseram que não o haviam lido, e talvez o fizessem quando tivessem algum tempo. No máximo, haviam feito alguma “leitura diagonal”, suficiente para apontar o “estilo cansativo” e o viés ideológico. E, de fato, ninguém precisava mergulhar no texto para ver que os velhos vícios permanecem.

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Dessas quase 100 páginas, 40 são dedicadas à guerra travada entre Irã, Estados Unidos e Israel. O leitor mais suscetível terminará essa parte querendo se alistar na Guarda Revolucionária, tão comovente é a narrativa dos autores sobre um país que enfrenta uma ameaça existencial – e não, não estamos falando daquele outro país, que é atacado desde o início de sua existência por vizinhos que não o reconhecem e pregam seu extermínio, e que, mesmo tendo armas nucleares, não as usa, ciente da doutrina da Destruição Mútua Assegurada.

“Ao sobreviver a décadas de sanções, isolamento, sabotagem e pressão diplomática, o Irã demonstra, na prática, que a ordem regional patrocinada pelos EUA encontra limites.”

Trecho da Análise de Conjuntura Social.

É claro que, para fazer uma defesa tão enfática do regime dos aiatolás, é preciso empurrar alguns fatos incômodos para baixo do tapete. As tentativas iranianas de conseguir uma bomba atômica? A esse respeito, a análise menciona uma fatwa para inglês ver, enquanto omite o que disse, semanas atrás, o diretor da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi: “Nenhum país sem armas nucleares enriquece urânio como o Irã”. Repressão governamental aos protestos de rua, com milhares (talvez dezenas de milhares) de mortes? Nada. Até existe uma menção à “dureza dos aparatos de segurança”, mas no fim de uma frase digna dos grandes passadores de pano: “o medo da fragmentação e da ingerência externa nas periferias étnicas ajuda a explicar tanto a centralização política quanto a dureza dos aparatos de segurança”.

E o financiamento do Irã ao terrorismo internacional? Há raríssimas menções no documento ao Hamas e ao Hezbollah, reduzidos a uma mera rede de “milícias alinhadas a Teerã”; os grupos nunca são chamados pelo que realmente são. Em vez de terroristas, não passariam de “uma rede de atores que reduzem sua [de Israel] liberdade de ação e mantêm abertas múltiplas frentes de pressão”, como se estivessem fazendo algo legítimo, e não explodindo e massacrando civis em atos como o de 7 de outubro de 2023. O Irã, portanto, não é um financiador do terrorismo, mas um “centro organizador de resistência regional”, capaz de “produzir ou sustentar dissuasão indireta”. Muito digno.

Avaliação do cenário nacional insiste no “Lula bom, Bolsonaro mau”

Quando sai do Irã e vem para o Brasil, a Análise de Conjuntura continua dando razão aos bispos que demonstram cansaço só de pensar em pegar o texto para ler com calma. Logo no primeiro parágrafo desse trecho lemos que “o país saiu do ciclo mais agudo de autocratização registrado entre meados da década passada e a eleição de 2022” – o período da “autocratização”, coincidência ou não, é aquele no qual o PT não estava no Palácio do Planalto.

Mas alto lá, porque falar em “normalização democrática” é manifestar um “otimismo superficial”, dizem os autores da análise. Como eles acham que manter uma cabeleireira longe dos filhos pequenos por meses a fio e condená-la 14 anos de cadeia por escrever “perdeu mané” em uma estátua é coisa “institucionalmente necessária”, suponho que a tal da “normalização democrática” só será atingida quando toda a “direita e extrema direita” (na análise nunca existe “centro-direita”, como também não existe “extrema esquerda”) não tiver mais direito à liberdade de expressão, nem representação política, nem nada, certo?

Na economia, os autores da análise capricharam: pegaram apenas os indicadores positivos, como o baixo desemprego e a inflação dentro do limite de tolerância da meta, mas omitiram totalmente a explosão da dívida pública e o déficit primário (o real, não o maquiado pelas inúmeras exceções que tiram despesas do cálculo do resultado final). O documento até aponta as elevações do endividamento e da inadimplência, mas não as associa à estratégia do governo Lula de manter a economia superaquecida incentivando o consumo – um roteiro que já terminou em crise, e das grandes.

Sobre a eleição de outubro, basta vermos que, segundo os autores da análise, “a tendência para o pleito é a reedição do embate entre o lulismo, personificado na figura do presidente Lula e seu projeto de inclusão social, e a extrema direita, que nesta quadra pretende ter o senador Flávio Bolsonaro como um dos principais articuladores ou protagonistas da herança política do pai”. Convenhamos, entre um (insira aqui emoji de coraçãozinho) “projeto de inclusão social” e a (insira aqui uma voz grave e assustadora) “extreeeeema direita”, a escolha é óbvia – ao menos a dos redatores é, e eles não escondem.

Pra vocês não dizerem que eu só falei mal da análise, o texto tem seus momentos de relógio quebrado, aquele que acerta a hora duas vezes por dia. Critica a farra das emendas parlamentares, e afirma que “uma democracia em que o Supremo se converte no mediador recorrente da política cotidiana não é uma democracia equilibrada”. Mas, coitado, o Supremo não faz ativismo judicial porque gosta ou porque quer, e sim porque “é empurrado para o papel de árbitro de disputas ordinárias que deveriam ser resolvidas politicamente”. Claro, é o Psol que bota uma faca no pescoço dos ministros para eles descriminalizarem as drogas, “regularem” a internet, ou equipararem homofobia a racismo. Pronto, falei mal do texto de novo. Mas o que eu posso fazer?

“A transmissão religiosa, outrora sustentada pela família, pela paróquia e por uma estrutura social mais homogênea, já não se impõe com a mesma força. Em seu lugar, emerge uma pertença marcada pela escolha individual, frequentemente provisória e condicionada às necessidades caracteristicamente subjetiva.”

Trecho da Análise de Conjuntura Eclesial.

Como não havia nenhum contato específico do Grupo de Análise de Conjuntura no site da CNBB, enviei à assessoria de imprensa da conferência episcopal algumas perguntas sobre as omissões do texto, mas até a publicação da coluna ainda não havia recebido nenhuma resposta.

Análise de Conjuntura Eclesial já melhorou bastante, mas ainda pode evoluir

Enquanto as Análises de Conjuntura Social têm uma certa periodicidade, saindo algumas vezes por ano, a Análise de Conjuntura Eclesial costuma ser divulgada apenas durante a Assembleia Geral. A deste ano foi intitulada “Evangelizar em tempos de pós-cristandade”, e é importante lembrar que ela não é feita pelo mesmo grupo da análise social. O texto de 2023 tinha sido muito ruim, a ponto de até bispos ditos “progressistas” terem se incomodado com o conteúdo, pelo que me disseram à época; era uma análise que demonizava os influenciadores mais conservadores, e classificava como “assustadora” a “atração exercida por perfis, discursos e estética neotradicionalistas sobre os que se preparam para serem padres”. Sobrava até para a religiosidade popular, que precisava ser “corrigida” se necessário. Em 2024 a coisa melhorou bem, até porque mudou a lista dos responsáveis pela elaboração do texto.

Bem mais breve que a análise social (embora eu ache que deveria ser o contrário, em se tratando de textos para bispos católicos), a análise eclesial tem como linha central a constatação de que o Brasil entrou na era da “pós-cristandade”, “marcada por pluralismo, secularização e religiosidade fluida, em que a fé cristã continua relevante, mas como opção pessoal e não como tendência sociocultural”. Não é um país menos religioso ou mais ateu, mas um país mais plural em termos de filiação religiosa. Os autores reconhecem a “diminuição percentual de católicos” e falam em “empenho pastoral por recuperar os que se foram”. É um bom começo.

O texto reconhece que, dentro da Igreja, há fenômenos como o enfraquecimento de “formas tradicionais de mediação tais como a paróquia territorial” e o enorme grupo dos que creem sem pertencer nem seguir, e afirma que a Igreja tem de encontrar “opções pastorais que, ao mesmo tempo, tornem o Evangelho inteligível e interpelável, ou seja, capaz de ser compreendido, porém com igual força para questionar o que se se manifesta como contrário ao que Jesus Cristo indicou”, e “buscar itinerários para que a fé seja transmitida às novas gerações, seja alimentada e mantenha seu vigor profético-solidário”. Que opções e que itinerários, isso o texto não diz, e acho que nem era o propósito dele, já que também estavam em discussão na Assembleia Geral as novas diretrizes para a ação evangelizadora.

A visão que os autores têm da religiosidade popular é bem mais positiva que a de análises semelhantes publicadas no passado. Mas, apesar de todo o discurso sobre sinodalidade, pluralidade, “múltiplas formas de ser e de evangelizar”, “escuta qualificada dos diferentes”, senti umas leves indiretas a modos mais tradicionais ou conservadores de viver a fé católica. Mesmo no trecho que elogia a piedade popular, há uma tentativa de fazer uma contraposição com “rituais litúrgicos herméticos e engessados”; outro trecho fala de “fé à la carte, centrada no indivíduo autorreferenciado, algumas vezes estimulado por influencers religiosos”. Antes disso, ainda há um alerta sobre comunidades que se tornam “ilhas de proteção, reunindo pessoas em torno a si mesmas, com propostas de isolamento do mundo e até mesmo da Igreja. (...) uma tendência de espiritualidade e uma configuração comunitária, explícita ou implicitamente, alimentam a criação de mundos à parte, com os que se consideram espiritualmente perfeitos e por isso de alguma forma desinteressados pela transformação da realidade”. Se não era uma indireta aos tradicionalistas (que têm um senso de comunidade fortíssimo), ao menos foi o que pareceu – acrescida de um preconceito pelo qual eles só ligam para a missa e não fazem absolutamente nada, por exemplo, pelos mais pobres.

Textos enviesados queimam o filme da CNBB

“Ainda bem que não pode ser considerada documento dos bispos”, disse-me um bispo sobre a Análise de Conjuntura Social. De fato não é mesmo um texto oficial da CNBB, mas um “serviço” aos bispos. Serviço muito mal feito, se o objetivo é apresentar informações para que eles possam avaliar bem os assuntos que os autores abordam. E nem todo católico que esbarra num texto desses saberá fazer essa distinção, já que está tudo publicado no site da conferência, e o disclaimer não tem aquele destaque todo. Nas perguntas que enviei à assessoria de imprensa da CNBB, também questionei a presidência sobre essa associação, mas não veio resposta.

O melhor, evidentemente, seria fazer com que as análises fossem de fato bem elaboradas, em vez de serem peças de propaganda político-ideológica. Mas isso exigiria uma equipe de autores plural, o que por sua vez exige pressão por parte do episcopado. Há bispos empenhados nisso, mas um deles me disse que ainda são minoria diante dos que concordam com os textos ou simplesmente não se importam – sabe Deus quantos outros bispos também nem chegam a ler essas análises. No entanto, esse mesmo bispo manifestou esperança de que, no médio prazo, se chegue a um equilíbrio. Só espero que até lá os atuais autores não tenham queimado de vez a reputação da CNBB.

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