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O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, ao qual a Marinha dos Estados Unidos respondeu com um bloqueio aos portos iranianos, está sendo meticulosamente acompanhado, a milhares de quilômetros do Oriente Médio, por estrategistas chineses, taiwaneses e norte-americanos.
A razão para isso está nos numerosos paralelismos que podem ser traçados entre a situação em curso no Golfo Pérsico e uma eventual crise grave no Estreito de Taiwan.
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Publicado em 2026-05-04 11:06:45O paralelismo geoeconômico salta aos olhos. São dois estreitos por onde se afunilam fluxos comerciais importantíssimos para a economia global. Por Ormuz passam (ou passavam, antes do bloqueio) cerca de 1/5 de todo o petróleo e gás natural comercializados no mundo, além de parcela relevante de fertilizantes e produtos petroquímicos.
Pelo Estreito de Taiwan passa cerca de metade do tráfego global de navios porta-contêineres, que chegam ou partem principalmente da China, do Japão, da Coreia do Sul e da própria ilha de Taiwan. Além disso, quase 90% do comércio de Taiwan — que fabrica 90% dos semicondutores mais avançados do mundo — passa por suas águas.
Isso significa que um eventual bloqueio do Estreito de Taiwan paralisaria cadeias globais de eletrônicos, inteligência artificial, automóveis e telecomunicações, setores altamente dependentes de semicondutores
Ou seja, enquanto a crise gerada pelo fechamento de Ormuz já provoca forte impacto energético e inflacionário mundial, o desarranjo econômico de um bloqueio em Taiwan tenderia a ser ainda maior, dada a concentração de componentes de alto valor agregado e tecnologia crítica.
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A altíssima sensibilidade estratégica que envolve ambos os estreitos é ainda mais inquietante. Ormuz localiza-se no coração de um Oriente Médio marcado por instabilidades e antagonismos crônicos, que explodiram em uma grave crise a partir de fevereiro de 2026, com o bloqueio iraniano e o contrabloqueio naval americano.
Já o Estreito de Taiwan é o ponto fulcral de uma questão existencial ainda não resolvida pela China: a reunificação com Taiwan. Para Pequim, a ilha é parte inalienável do território chinês, cuja reincorporação é indispensável para a “completa revitalização da nação chinesa”.
Nesse sentido, os últimos anos caracterizaram-se por uma intensa atividade militar chinesa no entorno de Taiwan, com manobras que simulam bloqueios navais e incursões aéreas e navais frequentes, culminando em dois exercícios militares de grande escala ao redor da ilha, o Strait Thunder-2025A e o Justice Mission 2025.
Em razão dessas semelhanças, é natural que as escolhas estratégicas, operacionais e táticas dos contendores na atual crise do Golfo Pérsico sejam esquadrinhadas com lupa por estrategistas chineses, taiwaneses e mesmo por norte-americanos, à luz do cenário taiwanês. Vejamos três exemplos. Muitos outros poderiam ser levantados.
Para os chineses, as ações norte-americanas e israelenses no Irã demonstram as limitações do emprego do poder aeroespacial de forma isolada, algo que pode estar sendo planejado para uma eventual ação em Taiwan. Afinal, os milhares de bombardeios a alvos estratégicos e a eliminação de várias lideranças iranianas importantes, sem o emprego de forças terrestres significativas, como EUA e Israel vêm fazendo contra o Irã, mostram-se insuficientes para provocar uma mudança de regime ou uma alteração significativa no comportamento dos iranianos quanto ao seu programa nuclear ou à reabertura do estreito ao fluxo mercante internacional.
Por outro lado, os EUA estão testando, na prática, a eficiência da estratégia de “bloquear o bloqueio”. O contrabloqueio naval imposto aos portos iranianos pode servir de modelo para uma eventual resposta a um bloqueio chinês contra Taiwan, com ações americanas nos estreitos de Malaca, na Primeira Cadeia de Ilhas (do Japão às Filipinas) ou em outros gargalos logísticos chineses na região do Indo-Pacífico.
Já os taiwaneses observam com atenção a “escalada horizontal” iraniana: a capacidade de expandir o conflito para o domínio econômico global, impondo custos elevados a terceiros países e forçando a comunidade internacional a pressionar por um cessar-fogo.
Nesse sentido, Taipé poderia considerar, em cenário extremo, formas de “lockout” seletivo, isto é, a interrupção ou restrição deliberada das exportações de semicondutores avançados em caso de ofensiva chinesa, visando a gerar um choque econômico mundial imediato que envolva aliados e neutros na pressão por recuo de Pequim. Trata-se, porém, de uma opção de alto risco: embora amplifique o poder dissuasório de Taiwan, também imporia danos severos à própria economia da ilha, que depende criticamente dessa indústria.
Como se vê, a crise em curso no Estreito de Ormuz serve como um laboratório estratégico em tempo real, cujas lições são absorvidas simultaneamente por Pequim, Taipé e Washington. O desfecho da crise atual em Ormuz — seja por negociação, exaustão ou escalada — provavelmente influenciará diretamente os cálculos estratégicos e de risco em torno de Taiwan.