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O Brasil ainda convive com um desafio histórico: milhões de jovens e adultos não concluíram a educação básica na idade regular. Segundo dados recentes do IBGE, parcela significativa da população acima de 25 anos não finalizou o ensino médio, o que impacta oportunidades de trabalho, renda e participação social. Nesse cenário, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) cumpre papel estratégico na promoção do direito à educação ao longo da vida.

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No entanto, garantir acesso não é suficiente. Um dos maiores desafios da EJA é assegurar permanência e aprendizagem significativa. E isso passa, necessariamente, pela forma como avaliamos.

Durante décadas, a avaliação esteve centrada na medição de conteúdos e na atribuição de notas como principal indicador de desempenho. Embora esse modelo tenha sua função, ele frequentemente ignora as trajetórias de vida, as experiências profissionais e os saberes acumulados por estudantes que, em sua maioria, são trabalhadores e assumem múltiplas responsabilidades. Quando a escola desconsidera essas vivências, corre o risco de reforçar distanciamentos e desmotivação.

Repensar a avaliação na EJA significa reconhecer que aprender não começa na sala de aula. Significa compreender que competências cognitivas, socioemocionais e técnicas são construídas também no trabalho, na família e na vida social. É nesse contexto que a avaliação por competências, articulada ao Reconhecimento de Saberes (RdS), ganha relevância.

Essa abordagem desloca o foco da simples verificação de conteúdos para a análise do desenvolvimento de capacidades como resolução de problemas, comunicação, colaboração, pensamento crítico e autonomia. Ao valorizar saberes já construídos, torna o processo mais justo, mais motivador e mais coerente com a realidade dos estudantes.

Os bene cios ultrapassam o âmbito individual. Quando o estudante se reconhece como sujeito de conhecimento, fortalece sua autoestima acadêmica, amplia seu protagonismo e se engaja de forma mais consistente na aprendizagem. Para a sociedade, isso significa maior permanência escolar, qualificação profissional e formação de cidadãos mais críticos e participativos.

Experiências já em andamento demonstram esse potencial. Em iniciativas como a da Nova EJA desenvolvida na rede de Colégios Sesi PR, a integração entre avaliação por competências e Reconhecimento de Saberes tem sido aplicada por meio de rubricas, portfólios, autoavaliação e análise de trajetórias profissionais. O resultado observado é maior engajamento, melhoria na qualidade das produções e avanço na capacidade argumenta va, fatores que contribuem para a permanência escolar.

Mais do que alterar instrumentos, trata-se de promover uma mudança de cultura. Avaliar por competências, integrado ao reconhecimento das aprendizagens construídas ao longo da vida, é afirmar que a educação é um processo contínuo de desenvolvimento. É reconhecer cada estudante em sua história, seus conhecimentos e seu potencial.

Fortalecer a Educação de Jovens e Adultos com práticas avaliativas mais inclusivas e contextualizadas não é apenas uma escolha pedagógica — é um compromisso social. Em um país marcado por desigualdades educacionais, reconhecer saberes é também reconhecer trajetórias e ampliar possibilidades de futuro.



Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/ler-e-pensar/avaliacao-por-competencias-na-eja-reconhecer-para-transformar/