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O caso do detergente Ypê, que teve um lote recolhido pela Anvisa, é mais grave do que parece. E também menos grave, como se verá no final desta crônica. É grave porque revela que já chegamos àquele estágio da guerra ideológica em que absolutamente tudo é politizado. Até um detergente. Essa é uma armadilha espiritual na qual a direita também caiu e agora é lidar com isso. É grave também porque, no Brasil de 2026, não dá para invalidar por completo a tese de que a empresa fabricante sofre perseguição política da agência reguladora.
Mas o mais grave é isto: o caso e a repercussão nas redes sociais e principalmente a dúvida quanto à veracidade da contaminação do detergente Ypê mostram a que nível chegou nossa desconfiança em autoridades de quaisquer tipos. Não acreditamos mais no que dizem os políticos – e ok. Mas tampouco acreditamos no que dizem os técnicos e a imprensa. Para tudo criamos uma realidade (infelizmente factível) que se adapta às nossas noções pré-concebidas, quando não à nossa paranoia. Ou seja, a realidade, hoje, é aquilo que a gente quer que seja a realidade.
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Publicado em 2026-05-12 06:44:39Pau cascudo
Nem tudo, porém, são trevas nessa notícia aparentemente banal, mas que nos últimos dias ganhou contornos quase revolucionários. Porque ao menos a Revolta do Detergente me deu a oportunidade de falar sobre o ipê. É, a árvore que se apresenta em diversas colorações: amarela, rosa, roxa, branca e até verde. E que, ao contrário do que acreditam muitos, não é um pé de detergente. O ipê que, em tupi, significa “pau cascudo”. (Um abraço pra turma da 5ª série!). Uma árvore bela, mas que há meio século tem se envolvido com a política. O que é meio curioso, mas também meio ridículo.
Em 1961, Jânio Quadros acordou de bom humor e decidiu que o ipê seria declarado a flor nacional do Brasil. A flor, não a árvore, que desde sempre é o pau-brasil. O motivo era que o ipê está presente no país inteiro. Além disso, o amarelo das flores, juntamente com o verde das matas ao redor e o céu azul, remete às cores do pavilhão nacional. Mas o decreto não vingou, sei lá por quê. Em 1974, outra tentativa. Nada. Em 1975, agora vamos ver se dá e... não deu. Até que, em 1978, a questão foi encerrada: o pau-brasil é a árvore nacional por lei e o ipê é a flor nacional por aclamação. Aclamemos, pois, o ipê. Ou o Ypê, se lhe aprouver.