O filósofo Friedrich Nietzsche tem uma simples e importante lição que a direita brasileira precisa aprender com urgência. (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

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O que é uma crise? O termo grego ?????? (krísis) tem significados aparentemente diversos, mas que se unem perfeitamente no que entendemos ser um momento de crise. Pode ser tanto separação quanto decisão, julgamento ou o momento de escolha (o que nós chamamos de timing e os gregos, muito mais ricamente, de ??????, ou kairós, quando um instante tem mais significado para o destino do que muitos longos momentos anteriores e posteriores).

Ou seja, uma crise é um momento de decidir algo com certa urgência, com pouco tempo, sabendo-se que este momento é de ruptura, de diferença, de separação do joio do trigo. Muito será deixado para trás – porém, quem sobrevive carrega algo muito mais grandioso.

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Como ocorrem crises políticas? Na literatura e na história, as duas verdadeiras instâncias da vida onde ocorrem os grandes atos (infelizmente esquecidos e trocados por discussões sobre Brasília), estamos acostumados ao lugar-comum de que crises políticas são geradas por uma diferença entre realidade e imagem, quase sempre agravadas por bajuladores nas altas esferas do poder, crescendo enquanto parasitam aqueles reis poderosos, mas “aconselhados” por algum capachão que afasta o rei da realidade, via de regra aproveitando-se de uma fraqueza sua (vaidade, ganância, medo e derivados), com alvitres que provoquem um alento ao ego do soberano, enquanto o direcionam à bancarrota.

É impossível pensar em um puxa-saco na política que não tenha uma agenda própria, quase sempre inversa à do bajulado. O puxa-saco nunca é heroico ou virtuoso, nunca é admirável.

Othello, Macbeth, Fiódor Pavlovitch (de Os Irmãos Karamázov), todos vivem cercados de capachões que os levam à sua própria ruína. Talvez os dois exemplos mais famosos sejam Dom Quixote, que é incentivado por cortesãos que cruelmente riem de sua loucura, e Gríma Língua de Cobra (Grima Wormtongue), de O Senhor dos Anéis, que isola o rei Théoden de Rohan de pessoas sinceras, transformando sua dependência emocional em influência política. Quem acaba governando, obviamente, é o próprio Gríma, e não Théoden, prisioneiro do próprio medo, cada vez mais irreal. A corte de Théoden é um ambiente de medo, paranoia, inveja e ressentimento, no qual a obsessão monomaníaca é a única linguagem compreendida. O ambiente contrário ao de Édipo Rei, em que todos tentam avisar Édipo de sua situação trágica, enquanto o rei nega a si próprio quem ele mesmo é.

Cercadas por adulões, figuras poderosas ficam cada vez mais afastadas da realidade, vivendo de uma autoimagem colocada diante de seus olhos por quem sabe se aproveitar do caos e da divisão para conquistar seus inimigos, quase sempre com um jogo duplo – e com a mentira como moeda de troca no balcão de negócios do poder. A separação entre a imagem e seus atos aprofunda tragicamente a crise.

O filósofo Friedrich Nietzsche possui um apotegma memorável: “Uma coisa é o pensamento, outra a ação, outra ainda a imagem da ação. A roda da causalidade não gira entre eles”. Uma crise política, essa divisão que exige um julgamento, esta separação que só é resolvida com uma escolha, mesmo antes do advento da democracia moderna, costuma advir do divórcio entre pensamentos, ações e imagens das ações. Um não deriva do outro. Nietzsche utiliza a imagem do vento que move as árvores para mostrar que forças invisíveis nos movem, e não existiria um sujeito desatrelado das próprias ações.

Políticos e homens públicos são julgados pelas imagens de suas ações, muito mais do que por suas ações. As intenções de suas ações são simplesmente ignoradas

Um político que simplesmente converse com uma figura de gosto duvidoso para o público, não importando qual seja o conteúdo do colóquio, terá sua imagem indelevelmente prejudicada.

A solução para reencadear os fatos é ter domínio sobre a forma como a história é contada: ter senhorio e posse sobre a narrativa, contada com maestria e sinceridade. A sinceridade exige ignorar as palavras melífluas dos capachões: o melhor amigo é o que diz que você está feio e esqueceu de escovar os dentes antes de ir a um encontro romântico. É a sinceridade que permite uma aproximação entre pensamento e ato, que apazigua o efeito devastador da imagem de atos – atos que necessariamente serão julgados longe de suas intenções. Ou seja, é preciso narrar o ocorrido com sinceridade, colocando os fatos em ordem.

Bem ao contrário do que a direita tem feito com o termo narrativa, que os conservadores deveriam estudar obsessivamente nos próximos anos, ela não deve ser utilizada como sinônimo de mentira. Devemos apenas reconhecer que a esquerda, pródiga nas áreas do controle do imaginário público (da crítica literária ao marketing, da historiografia ao jornalismo), entende muito mais de narrativa do que a direita, exageradamente ocupada com atividades de somenos importância, como a militância e a pregação para convertidos em redes sociais.

Bastaria à direita resolver seus desgastes de imagem com mais sinceridade, ainda mais envolvendo “crises” que não são crime. Da Wal do Açaí ao 8 de janeiro, dos imóveis da família ao “pintou um clima”, do Queiroz ao Vorcaro, políticos da direita, que costumam viver cercados de “fiéis” adulões, confiam demais em uma bolha de redes sociais para resolver seus problemas, conversando apenas com seu “espelho, espelho meu”, enquanto não contam a história com começo, meio e fim (inclui clímax e lição de moral). Contar pedacinhos por algoritmos é a pior escolha possível.

Tais políticos nunca param por 2 minutos para dizer: “A história foi essa: eu conheci o cara no momento tal, pedi dinheiro, não tinha nada de crime, depois descobri que o sujeito é malandro, porque ninguém vem com uma tatuagem escrita ‘Pilantra’ na testa, mas, assim que percebi que o meliante é bandido, me afastei”.

Tivessem feito isso há meses, e Flávio Bolsonaro manteria sua imagem impertérrita, estaria imbatível em primeiro lugar nas pesquisas, poderia ter passado os meses em que a direita bateu no Master (e no resort Tayayá, e nos 129 milhões para Viviane Barci, e no isolamento do STF) batendo junto, ao invés de ter ficado quieto, esperando que ninguém encontrasse o fundo para o filme de Jair Bolsonaro.

Hoje, com cada um dizendo uma coisa diferente a cada entrevista, a cada “mitada” no X, a cada declaração pública, a cada resposta tergiversante a jornalistas – e ainda aumentada pelas besteiras propagadas por Mário Frias, Paulo Figueiredo, Kim Paim e o entorno extremamente lucrativo dos bajuladores com agenda própria do Foro do Bahrein – não se tem uma narrativa.

Não se tem uma história organizada e clara, com começo, meio e fim – e, principalmente, com sinceridade. Tem-se a incômoda sensação de uma cisão suspeita entre ações e o que sabemos ou percebemos de tais ações. Neste ambiente, apenas os sabujões cheios de encômios forçados continuam ganhando poder e influência, como Gríma Língua de Cobra, enquanto a corte e os verdadeiros cavaleiros guerreiros são constantemente apunhalados pelas costas.

Tudo porque os soberanos preferem gabação falsa a alguém que grite em suas fuças que o palácio está em chamas. Crises só são resolvidas com outras palavras correlatas ao verbo ??????? (krínein): exigem critério, crítica e discriminar (no sentido original de distinguir). Não é possível fazer nem o básico da contenção se só se ouvem línguas de cobra. Não custa lembrar que até o sufixo -cracia também está ligado a decisões e julgamentos políticos.

Ou a direita aprende a contar histórias com narrativas sinceras e técnicas, e aprende a ter algumas verdades esfregadas em seus narizes vaidosos, ou continuará acreditando que o poder que tem em redes sociais e aeroportos é o mesmo que a vida real fora dos panegíricos de gente sem vida social nos dois ambientes. Quando o rei descobre que está nu, apenas a sinceridade é capaz de vesti-lo.

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