Comprometimento de renda das famílias foi gradativo, diz pesquisadora

Comprometimento de renda chega a 29,7% e especialista alerta para riscos de novos programas de renegociação sem educação financeira

O endividamento das famílias brasileiras atingiu patamares recordes, tornando-se o centro do debate econômico e político no país.

Segundo dados do Banco Central, o comprometimento da renda mensal disponível das famílias com o pagamento de dívidas junto ao sistema financeiro chegou a 29,7%.

Katherine Hennings, pesquisadora do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) e analista da BRCG Consultoria, avalia que o agravamento do cenário foi gradativo.

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"A situação do comprometimento de renda das famílias tem se agravado gradativamente. Não é nem uma surpresa. Quem acompanha crédito, as estatísticas do Banco Central que são publicadas mensalmente, já estava vendo esse agravamento", afirmou.

Dívida vai além do sistema financeiro

Hennings ressaltou que o índice de 29,7% divulgado pelo Banco Central se refere exclusivamente ao serviço da dívida junto ao sistema financeiro — ou seja, amortizações e juros —, e não contempla outros compromissos financeiros das famílias.

"As pessoas, as famílias, ainda têm comprometimentos com outros pagamentos: luz, água, telefonia, varejo, serviços", explicou.

Esse cenário conversa diretamente com os dados de inadimplência do Serasa, que apontam que quase 50% das famílias brasileiras possuem dívidas em atraso.

A pesquisadora fez ainda uma distinção importante entre os conceitos de dívida e inadimplência.

"Dívida é você dever para alguém e inadimplência é você não pagar o que deve. Os dados do Serasa são de inadimplência, os dados do Banco Central têm dos dois, mas o 29,7% é comprometimento de renda", esclareceu.

Desenrola: benefícios e riscos do programa

Diante desse cenário, o governo tem discutido uma nova rodada do programa Desenrola, voltado à renegociação de dívidas.

Para Hennings, a iniciativa anterior teve um mérito importante: "A grande vantagem do Desenrola 1 foi chamar a atenção das pessoas para renegociar. Elas podem renegociar, elas não precisam só ficar desesperadas em casa achando que não podem ir nas instituições financeiras renegociar".

No entanto, a especialista demonstrou preocupação com a repetição excessiva do programa.

"Não podemos entrar num vício, que é uma sinalização errada, de Desenrola um, dois, três, quatro, porque senão todo mundo aprende, não paga e fica esperando o próximo Desenrola", alertou.

Para ela, o programa deve garantir que as pessoas efetivamente paguem suas dívidas e aprendam a gerenciar o próprio orçamento.

Bancarização sem educação financeira

Outro fator apontado como contribuinte para o endividamento é o processo de bancarização acelerado, que ocorreu em paralelo à digitalização dos serviços financeiros.

Hennings avalia que, embora a bancarização seja uma reforma estrutural positiva, o acesso rápido ao crédito nem sempre foi acompanhado de conhecimento adequado por parte dos tomadores.

"Você teve um processo razoavelmente rápido de acesso ao sistema financeiro, de oferta de modalidades de crédito, sem que necessariamente as pessoas que têm esse acesso saibam exatamente o que elas estão fazendo", disse.

A pesquisadora citou ainda iniciativas regulatórias já em curso, como a obrigatoriedade de destacar em negrito o valor total da fatura do cartão de crédito, em vez de apenas o pagamento mínimo.

Para ela, trata-se de um "processo de aprendizado um pouco doloroso", mas necessário, e os reguladores já estariam trabalhando para ordenar o mercado sem criar obstáculos ao desenvolvimento estrutural da bancarização.

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Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/comprometimento-de-renda-das-familias-foi-gradativo-diz-pesquisadora/