A artista portuguesa Grada Kilomba durante a inauguração de sua obra "O Barco" em Brumadinho (MG), em 2024. (Foto: André Borges/EFE)

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“E todos os meus instintos me dizem que tanto como escritora quanto como pessoa qualquer rendição total a outra cultura me destruiria. E o perigo não vem sempre da indiferença; vem também da aceitação. Chama-se por vezes de medo da assimilação, o horror de ser tragado por outra cultura.” (Toni Morrison)

Recentemente, assistindo a uma entrevista com a psicóloga e artista interdisciplinar Grada Kilomba, no podcast Mano a Mano, apresentado por Mano Brown – já mencionado muitas vezes nessa coluna –, deparei-me com uma situação semelhante à descrita por mim em relação à escritora Chimamanda Adichie no artigo da semana passada, bem como a postura do personagem Thelonious Ellison – interpretado por Jeffrey Whight –, do filme Ficção Americana, sobre o qual também escrevi nesta Gazeta do Povo.

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Conheço pouco da artista – por isso, inclusive, meu interesse em ouvir o podcast. O que sabia dela havia me chegado do pior modo, via feministas negras, um segmento ainda mais ideológico e radical do feminismo, ocupado por pessoas de capacidade intelectual bastante discutível, para dizer o mínimo. E digo isso não para rebaixá-las, mas para evidenciar que a profundidade e consolidação de um segmento teórico depende de tempo para se estabelecer, e não é difícil encontrar fragilidades elementares nas teorias do feminismo negro – como “lugar de fala”, por exemplo.

Grada Kilomba é uma artista, escritora e pensadora interdisciplinar portuguesa que articula literatura, psicanálise e artes visuais para investigar como o colonialismo e o racismo moldam a subjetividade, a memória e a produção de conhecimento. Formada em Psicologia e radicada em Berlim, sua obra – que inclui o livro Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism e diversas performances e instalações – não se limita a tematizar o racismo, mas busca transformar a própria forma de produzir e transmitir saber, por meio do que ela chama de “encenar o conhecimento”.

O modo como Grada Kilomba se posiciona e o trabalho que faz são dignos de nota, porque ela fala de fora da bolha

Muito bem. Não é algo pelo qual eu me interesse muito; afinal de contas, toda essa conversa de decolonialismo me soa um tanto anacrônica, ao querer reinterpretar a dinâmica de domínio de um mundo completamente diferente do nosso com um moralismo ideológico que não se sustenta ao exame da história. Entretanto, o modo como Kilomba se posiciona e o trabalho que faz são dignos de nota, porque ela fala de fora da bolha. Primeiro, porque é portuguesa e não abre mão disso. Ela não se coloca nessa posição de diaspórica ou adota um discurso de vítima. Em vários momentos da entrevista, às indagações de Brown e de Semayat Oliveira (a jornalista que o acompanha na bancada), sua resposta iniciava com um decidido: é complexo.

Uma pergunta – longa, que exigiu uma resposta igualmente extensa – pode exemplificar o que quero dizer. Pegarei o centro da ideia a fim de não cansar o leitor. Semayat perguntou:

“Tem uma coisa que eu acho que a gente gostaria muito de te ouvir, [...] que é uma dimensão do trauma mesmo, que eu acho que é uma coisa que a gente não consegue ainda, né? Tocar, saber a profundidade da coisa. Aqui no Mano a Mano, [...] muitas vezes a gente fala nos bastidores: ‘hoje vamos tentar não falar de raça, hoje vamos tentar deixar a raça mais para o meio da conversa’. Mas sempre vem, e é um tema que é impossível a gente não tratar. Muitas pessoas, desde o começo do programa até agora, diziam o quanto era importante as conversas que a gente tava trazendo aqui terem um alcance que o programa conquistou, porque era um lugar de silenciamento, de conversa mais na nossa, né, como a gente diz aqui, muito grande assim [...]. Mas hoje a gente tem sentido que as pessoas muitas vezes estão cansadas, as pessoas não querem muito ouvir. Não sei se é porque dói, não sei se é porque tem uma parcela que realmente não quer discutir sobre isso. Mas você que também investiga essa dimensão do trauma dessa questão racial, como que você traz pra gente, [...] a importância de falar e de passar muitas vezes por essa recusa das pessoas, de tocar nesse assunto ou de falar sobre ele?”

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A resposta de Kilomba, longa, começa assim: “Eu acho muito interessante a tua pergunta, porque a nossa conversa começou exatamente assim, não é? Com questões que me pedem para eu me posicionar de uma forma, mas eu não me posiciono dessa forma, nesse lugar”. E argumenta que as formas de falar sobre raça e identidade mudaram ao longo do tempo: se a geração de seus pais evitava esses temas por falta de vocabulário e medo de punição, os movimentos das décadas de 1960 e 1970 criaram uma linguagem política que tornou possível nomear e afirmar a experiência negra como força de libertação. Hoje, porém, ela identifica uma nova etapa marcada por certa “fadiga” desse enquadramento, em que artistas questionam a necessidade de se definir por categorias raciais. E arremata:

“Por que é que eu me tenho que posicionar racialmente se uma artista branca não tem que se posicionar? Por que é que eu tenho que contar a minha biografia, mas não posso contar sobre a minha prática artística? Enquanto uma artista branca fala, durante uma entrevista inteira, sobre a sua prática artística – e nós ficamos a saber como ela trabalha e como compõe e como escreve e como instala as suas obras; e as pessoas ficam a saber onde é que eu nasci, com quem é que eu cresci e de onde é que os meus pais vêm. E aí levantamos uma questão muito importante, que é o voyeurismo. Eu não quero mostrar a minha história. Eu já não quero me posicionar nesse lugar. E acho que isso são questões muito importantes. Acho que nós agora somos uma nova geração (ou gerações que vêm depois de nós), que questionam esse posicionamento e dizem que esse posicionamento, talvez, tivesse sido importante há dez anos atrás ou há vinte anos atrás. Neste momento, eu não tenho que responder nada a ninguém. Eu não tenho que me posicionar como artista desta diáspora, daquela; talvez eu queira me posicionar de uma outra forma. E não estou a dizer isso para dizer que algo está correto ou algo está errado. O que está correto para mim é dar o espaço e a liberdade de manobra. E eu acho que cada uma de nós, consoante à sua biografia e geografia, posicionas de acordo com a forma que queres. E eu, de fato, questiono. Eu fico extremamente irritada quando, por exemplo, uma jornalista não é capaz de pôr um título num jornal, simplesmente ‘Grada Kilomba etc.’, mas, em vez disso, escreve ‘Artista negra’, ‘Primeira artista negra’. Eu não quero ler o jornal. Se sou referida apenas através de adjetivos, então ainda não sou a pessoa, a minha humanidade. Eu, como pessoa, essa equação me é retirada. Eu sou apresentada de uma forma quase objetificada com adjetivos, não é? Eu passo a ser ‘artista negra’, qual artista negra? E isso são os anos 60, nós estamos em 2026, portanto há uma evolução no vocabulário e há uma evolução também no posicionamento. E eu acho que é extremamente importante deixar que as pessoas se posicionem de novo e também aprender a posicionar-nos de novo, olhando e observando como é que as novas gerações se posicionam.”

Citação longa, mas satisfatória. Kilomba não quer rótulos. É artista e, enquanto tal, quer liberdade. E se coloca na discussão de modo infinitamente mais aberto que os ativistas brasileiros que, infelizmente, gravitam em teorias racialistas americanas, que têm, de fato, menos nuances por causa da longa segregação que viveram lá. Países como Portugal e Brasil têm uma composição muito diferente e relações muito diferentes. O racismo aqui e lá não é o mesmo que negros americanos viveram (e vivem) nos EUA. E ainda que eu veja Brown como uma pessoa muito mais aberta a essa discussão cheia de nuances – muito diferente de como a direita e a própria esquerda o veem –, o seu espanto foi visível.

“Se sou referida apenas através de adjetivos, então ainda não sou a pessoa, a minha humanidade. Eu sou apresentada de uma forma quase objetificada com adjetivos, não é? Eu passo a ser ‘artista negra’.

Grada Kilomba, artista portuguesa, no podcast Mano a Mano.

Temos de compreender o nosso problema – e ele existe, o meu leitor não o negará – considerando toda a imensa complexidade das relações que se construíram aqui. A influência americana, por exemplo, fez o IBGE assumir, por pressão dos movimentos negros, a configuração étnica dicotômica negro/branco e o delírio de enxergar a miscigenação como violência. Kilomba, sem recusar sua ascendência africana, reforça seu pertencimento à nação em que nasceu; ainda que faça críticas ao modo como a história dessa nação é transmitida (aqui entra o elemento decolonial).

No Brasil, Kilomba costuma ser amplamente reconhecida a partir desse recorte centrado em raça, colonialismo e identidade – leitura em parte impulsionada pela publicação recente, no Brasil, de  seu livro Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano – sua tese de doutorado, publicada há mais de 20 anos. Embora esse enfoque dialogue com temas centrais de sua obra, reduz a complexidade de sua prática, que também investiga linguagem, forma, memória e os modos de produção do conhecimento. A própria Kilomba, em entrevistas, resiste a esse tipo de enquadramento. Mas as feministas negras insistem em vê-la assim.

Óbvio que não precisamos concordar com as ideias de Grada Kilomba sobre feminismo, decolonialismo, e nem sequer sobre arte. Mas temos de tirar o chapéu para uma pessoa que, nesse presente tão marcado por posições radicais e inconciliáveis, não tem medo de enfrentar as contradições da vida, das relações, dos pertencimentos, das violências e das afinidades. É um avanço que, provavelmente, demorará a chegar aqui. Mas ouvi-la me deu esperança.

A obra O Barco, de Kilomba – composta por centenas de blocos de madeira escurecidos, dispostos no chão de modo a evocar, de forma abstrata e fragmentada, a estrutura de um navio negreiro (mas que, metaforicamente, evoca outras questões) –, está instalada no Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), onde ocupa a Galeria Galpão como uma obra de grande escala que articula escultura, performance e poesia.

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