Engenharia volta ao centro na corrida energética global
Em meio à transição energética e às incertezas globais, setor exige inovação, formação técnica e novas estratégias para não ficar refém do improviso
Vivemos um momento particularmente desafiador — e, ao mesmo tempo, estimulante — no setor de infraestrutura e energia. A engenharia clássica continua sendo indispensável para o desenvolvimento de projetos de geração e transmissão, mas já não é suficiente por si só. O contexto atual exige a criação de novos modelos, muitos dos quais ainda estão em fase embrionária e longe de uma aplicação consolidada.
Recentemente, ao visitar países como Estados Unidos, China e algumas nações europeias em um curto intervalo de tempo, foi possível traçar paralelos relevantes com o Brasil. Ainda que viagens pontuais não constituam uma amostra definitiva, a experiência de observar três continentes distintos revelou uma percepção comum: o mundo vive um período de ansiedade, marcado por incertezas e pela busca de respostas para transformações em curso.
A energia, como vetor central da economia global, é diretamente impactada por esse cenário. A combinação entre insegurança quanto ao futuro e a velocidade das mudanças tecnológicas e estruturais cria um ambiente de elevada complexidade. Em diferentes contextos geopolíticos, percebe-se um traço compartilhado: a falta de clareza sobre onde estamos e, sobretudo, sobre onde queremos chegar.
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Publicado em 2026-04-29 07:30:40A transição energética emergiu como uma força incontornável, mas sua gestão ainda carece de coordenação e maturidade. Embora se fale constantemente em transformação, o setor frequentemente recorre a ferramentas e abordagens herdadas dos anos 1990 — um descompasso que levanta uma questão essencial: estamos nos preparando de forma estruturada para esse novo cenário ou apenas reagindo de maneira desordenada?
Grande parte do debate atual concentra-se na solução de problemas imediatos, enquanto temas estruturantes permanecem em segundo plano. Entre eles, destacam-se a formação de uma nova geração de engenheiros e profissionais de tecnologia, o fortalecimento dos centros de pesquisa universitários e o investimento consistente em inovação. São esses pilares que permitirão enfrentar os desafios já colocados — e aqueles que ainda estão por vir.
As soluções exigidas por esse novo contexto dificilmente serão convencionais. A inovação será inevitável, mas não poderá prescindir dos fundamentos da engenharia nem da experiência acumulada por profissionais seniores. O desafio está em combinar tradição e disrupção: integrar diferentes fontes energéticas, atender às metas climáticas globais e operar em um ambiente geopolítico que, paradoxalmente, demanda mais coordenação enquanto se torna mais fragmentado.
No Brasil, movimentos recentes do setor — como os leilões de capacidade — vêm provocando uma revalorização da engenharia. Projetos competitivos têm exigido estudos de viabilidade que combinam ousadia, criatividade e rigor técnico, afastando a visão da engenharia como uma simples commodity de baixo custo. Trata-se de uma mudança relevante, que reposiciona o papel estratégico do conhecimento técnico na viabilidade dos empreendimentos.
Em conversa recente com uma executiva que já ocupou posições de liderança financeira e executiva em uma das maiores empresas de energia do país, ouvi uma afirmação emblemática: “a engenharia nunca foi tão necessária”. Vinda de uma profissional com formação financeira, a frase evidencia a centralidade que a engenharia reassume neste momento.
Diante desse contexto, torna-se urgente repensar o ensino de engenharia no Brasil, bem como fortalecer toda a cadeia de fornecimento dos projetos — fabricantes, empresas de engenharia, consultorias e centros de tecnologia. Sem avanço consistente em conhecimento tecnológico, o país corre o risco de ampliar sua dependência externa, limitando sua capacidade de resposta.
Mais do que diagnosticar problemas em fóruns e seminários, é necessário agir. A velocidade das transformações não permite hesitação: investir em conhecimento, inovação e formação técnica deixou de ser uma opção e passou a ser uma condição indispensável para enfrentar os desafios da nova era energética.
* Rogério Pereira de Camargo é engenheiro eletricista e diretor de projetos no setor de infraestrutura e energia