O CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, avalia que o agronegócio brasileiro atravessa um momento desafiador, mas longe de uma crise estrutural.

Em entrevista à CNN, durante a Agrishow, o executivo destacou a resiliência do setor, ao mesmo tempo em que reforçou a necessidade de políticas públicas mais robustas para garantir previsibilidade e destravar investimentos.

A leitura dele é que o agro segue competitivo “da porteira para dentro”, sustentado por ganhos relevantes de produtividade, tecnologia e mecanização ao longo dos últimos anos. O problema, segundo Werneck, está fora da fazenda.

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“O agricultor brasileiro é extremamente eficiente, bate recordes sucessivos de produção. Mas, quando a produção sai da fazenda, começam problemas que não estão na mão dele”, afirmou, citando gargalos logísticos e de infraestrutura como entraves recorrentes.

Risco crescente e falta de previsibilidade

Para o executivo, o principal ponto de atenção hoje é o aumento da incerteza. A combinação de juros elevados, alto nível de endividamento e restrição de crédito tem pressionado o produtor rural — e pode limitar a capacidade de investimento nos próximos ciclos.

“O agricultor vai ter cada vez menos previsibilidade e correr mais risco”, disse. “Se houver clareza do que vem pela frente, ele investe. Se não, ele segura.”

Werneck pondera que o momento é difícil, mas transitório. Ainda assim, defende uma atuação mais estruturada do governo federal, com instrumentos que permitam melhor gestão de risco — como seguros rurais mais abrangentes e mecanismos financeiros que suavizem choques climáticos e de mercado.

A avaliação é que eventos recentes, incluindo mudanças climáticas e volatilidade de preços, elevaram o nível de incerteza na tomada de decisão no campo, ampliando a demanda por políticas de longo prazo.

Agrishow: termômetro de confiança — com ressalvas

Na Agrishow, Werneck destacou o papel da feira como um dos principais termômetros de confiança do setor. Segundo ele, o evento ajuda a consolidar percepções e a gerar uma visão mais ampla do mercado, reunindo produtores, fornecedores e indústria em um único ambiente.

“Aqui se conversa com muita gente, o tempo todo, sobre negócio. Isso cria um otimismo coletivo maior”, afirmou.

Apesar disso, o executivo ressalta que o ambiente positivo da feira não elimina os desafios estruturais. Um dos exemplos citados é o setor de veículos pesados, que segue fraco e impacta diretamente a demanda por aço.

Caminhões pressionam e afetam operação da Gerdau

A desaceleração na venda de caminhões e máquinas agrícolas tem efeitos diretos sobre a operação da Gerdau no Brasil. A companhia investiu pesadamente na modernização da planta de aços especiais em Pindamonhangaba, voltada justamente para atender esse segmento.

Hoje, porém, a unidade opera com baixa utilização.

“É uma planta de última geração, preparada para produzir aço de alto valor agregado, mas está praticamente parada por falta de pedidos”, disse Werneck.

Segundo ele, a retomada desse mercado depende diretamente da recuperação do agro e de estímulos que restabeleçam a confiança — incluindo linhas de crédito e incentivos à renovação de frota.

Crescimento condicionado ao agro

O executivo afirma ter capacidade instalada para ampliar a produção no Brasil, mas condiciona esse crescimento à expansão do próprio agronegócio.

“Se o setor cresce, a gente cresce junto. Estamos prontos para produzir mais aço para máquinas, caminhões, cercas. Mas precisamos de demanda”, afirmou o executivo.

Com presença histórica no campo — desde o século XIX —, a companhia reforça sua estratégia de se posicionar como fornecedora de soluções completas para o agro, mas reconhece que o ritmo de expansão dependerá de avanços no ambiente macroeconômico e regulatório.

Agenda estrutural

Na visão da empresa, o potencial de crescimento do agro brasileiro permanece elevado, mas exige a superação de gargalos antigos. Entre eles:

“Se resolver esses pontos, o setor agrícola brasileiro cresce ainda mais. E, junto com ele, toda a cadeia industrial”, concluiu Werneck.



Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/agro/gerdau-ve-agro-resiliente-mas-cobra-governo-para-destravar-investimentos/