O colunista diante das igrejas de São Francisco de Assis (à esquerda) e Nossa Senhora do Carmo (à direita), em Mariana. (Foto: Caroline Marques)

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“Eu não quero nada: eu só quero que Jesus perdoe os meus pecados e me leve para junto d’Ele.” (Olavo de Carvalho)

Quando fui a Minas pela primeira vez, há quase 30 anos, quem eu era? Um jovem ateu, comunista, egoísta, deprimido, voltado aos prazeres mundanos e, acima de tudo, destituído de esperança. Diariamente, eu sacrificava minha consciência no altar da mentira. Mas, ao decidir viajar pelas cidades históricas mineiras (Mariana, Ouro Preto, São João Del Rey e Tiradentes), jamais poderia imaginar que ali viveria um dos episódios fundamentais da minha vida.

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Nos anos 60, um cosmonauta foi para o espaço e voltou dizendo que não havia encontrado nenhum Deus por lá. Eu achava que voltaria de Minas dizendo algo semelhante. No entanto, eu encontrei Deus em Minas, e da maneira mais perturbadora possível.

Foi numa tarde em Mariana. Naquela cidade, existe uma praça que leva o nome de Minas Gerais. Ali, diante do antigo pelourinho, duas igrejas, uma construída ao lado da outra, se contemplam pela eternidade. São as igrejas de Nossa Senhora do Carmo e de São Francisco de Assis, erguidas por duas ordens terceiras locais, no século 18.

Eu encontrei Deus em Minas Gerais, e da maneira mais perturbadora possível

Naquele dia, porém, havia algo diferente e sombrio na Praça Minas Gerais. Ao voltar meus olhos, nublados pela ressaca da noite anterior, para a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, tive uma visão infernal: ela havia sido devorada por um incêndio. O teto – pintado por um mestre do barroco – desabara com o calor das chamas. Vigas queimadas, imagens destruídas, paredes chamuscadas, cinzas por toda parte, um cheiro sufocante: parece que estou vendo a igreja incendiada aqui na minha frente.

O filósofo Olavo de Carvalho ensina que os chamados “atos sem testemunha” – ou seja, aqueles que só você e Deus presenciaram – são a única base possível sobre a qual o indivíduo pode desenvolver uma consciência moral autêntica, rigorosa e autônoma. Naquele instante, ao contemplar a igreja incendiada, eu vivi um desses momentos. Em silêncio, diante da imagem desoladora da casa de Deus sinistrada, eu disse a mim mesmo:

– Esta é a minha alma.

A partir daí, tudo mudou. Sim, eu ainda levaria alguns anos para curar as feridas e completar o caminho de volta para a Verdade e o Amor, mas foi diante da igreja incendiada que se iniciou o percurso. Aquele foi o acontecimento decisivo da minha vida. Não fosse a visão do templo consumido pelas chamas, eu hoje seria um homem louco, na melhor das hipóteses, ou morto, na mais provável.

Dias atrás, estive em Belo Horizonte, onde participei de um evento em homenagem ao Olavo, que completaria 79 anos agora. Aos meus amigos mineiros, tive a oportunidade de contar essa história de conversão. Depois da palestra, alguns desses amigos – entre eles Caroline Marques, minha amiga de infância e irmã de fé – se ofereceram para me acompanhar numa peregrinação a Mariana, onde reencontrei-me diante da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, hoje restaurada.

Minas Gerais me presenteou com um milagre: minha alma de pecador foi restaurada por Deus – e continua sendo restaurada todos os dias. Eu espero que Deus faça o mesmo com a alma de quem lê estas palavras agora.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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