Lula discursa durante lançamento do Novo Desenrola Brasil, em 4 de maio. (Foto: ChatGPT sobre foto de Ricardo Stuckert/Presidência da República)

Em um exemplo da célebre definição de insanidade – fazer a mesma coisa várias vezes, esperando resultados diferentes –, o governo Lula lançou, no início desta semana, uma segunda edição do seu programa de renegociação de dívidas, o Novo Desenrola Brasil. A iniciativa tem versões específicas para famílias, para produtores rurais, para estudantes com parcelas atrasadas do Fies, para aposentados e para empresários. Permitirá o uso de parte do FGTS (R$ 1 mil ou 20% do saldo, o que for maior), e bloqueará o CPF do devedor nos sites de apostas, as “bets”. A constatação óbvia é a de que se trata de um plano eleitoreiro, lançado para tentar aliviar a situação de Lula nas pesquisas de intenção de voto. A pergunta óbvia é: por que o primeiro Desenrola não funcionou?

Em 2023, 15 milhões de pessoas renegociaram R$ 53 bilhões em dívidas. No entanto, segundo dados do Banco Central, cada real renegociado naquela ocasião gerou R$ 1,15 em novas dívidas. O que aconteceu? No melhor estilo “a culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser”, no lançamento do novo Desenrola o governo responsabilizou as bets (que, é verdade, introduziram um novo elemento no endividamento dos brasileiros, vendendo o sonho da fortuna com pouco ou nenhum esforço) e até o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas nenhuma frase é tão emblemática quando a do ministro da Fazenda, Dario Durigan: “A expectativa de uma redução de juros se frustrou por várias razões e a gente foi percebendo um incremento da taxa de juros, o que onerou as famílias na contramão do que o primeiro Desenrola havia preparado”.

No discurso que fez ao assinar a MP do Desenrola, Lula não deixou dúvidas: o objetivo é continuar induzindo o consumo

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A Selic até caiu logo após o lançamento do Desenrola original: era de 13,75% ao ano e chegou a 10,50% em meados de 2024, mas logo disparou até 15% em junho de 2025, patamar em que se manteve até pouco tempo atrás. Mas que “várias razões” explicam a frustração da expectativa na redução dos juros? O ministro não disse, até porque acabaria se complicando muito caso quisesse ser honesto, e seria facilmente desmentido caso quisesse seguir o tradicional roteiro dos governos petistas de jamais admitir seus erros. Muito mais simples, portanto, deixar tudo no ar, e permitir que o Banco Central, cujos diretores definem a Selic, seja demonizado nas narrativas da esquerda.

A Selic alta nada mais é que a consequência da irresponsabilidade fiscal do governo, que tem batido recordes de arrecadação, e mesmo assim não consegue equilibrar suas contas, pois não controla seus gastos. Para impedir que a política fiscal expansionista cause (ainda mais) inflação, que pune especialmente os mais pobres, o BC adota uma política monetária contracionista – ou seja, juros altos. Se isso não está suficientemente explícito na comunicação do Copom após cada reunião, isso se deve apenas ao linguajar bastante polido dos comunicados e das atas. Por mais que haja incertezas externas, de tarifaços a guerras, a origem dos nossos juros altos está no Palácio do Planalto e em sua estratégia de incentivar o consumo para manter a economia aquecida.

No discurso que fez ao assinar a MP do Desenrola, Lula não deixou dúvidas: o objetivo é continuar induzindo o consumo – substituindo o endividamento antigo pelo endividamento novo. “A dívida tem de ser feita de acordo com o tamanho do passo que as nossas pernas podem dar. Se isso acontecer, todo mundo vai poder comprar mais, o comércio vai vender, as empresas vão produzir, o povo vai ficar mais feliz e sem nenhuma dívida para pagar”, afirmou. E, para isso, nada melhor que um programa que induz ao risco moral.

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O Desenrola, no fim das contas, padece dos mesmos problemas que os clássicos Refis e os programas de renegociação de dívidas de estados e municípios: quando se sabe que, mais cedo ou mais tarde, o governo lançará um novo programa para ajudar os endividados, que estímulo há para alguém aderir agora, ou seguir pagando no futuro o que for pactuado agora? E mais: quando se sabe que um devedor pode ter até 90% de sua dívida perdoada, que incentivo um brasileiro tem para quitar fielmente as parcelas de um financiamento ou um carnê, em vez de dar o calote também ele e aguardar um próximo Desenrola?

A tão necessária educação financeira para que o brasileiro aprenda a economizar e perceba que dívidas podem até ser necessárias para a aquisição de um bem mais caro, mas jamais para bancar as despesas do dia a dia, é substituída por soluções fáceis que continuam a estimular os mesmos comportamentos que dão origem aos recordes atuais de endividamento e inadimplência. Os bancos (que receberão valores que poderiam dar como perdidos) e o governo (se conseguir arrancar algum dividendo eleitoral) são os únicos reais ganhadores com o Desenrola; já a população poderá até aproveitar o alívio temporário, mas, sem os juros mais baixos – que dependem de uma guinada no comportamento do governo – e sem a informação sobre como cuidar melhor de seu dinheiro, corre o risco de estar muito cedo de volta ao buraco.

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