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O avanço das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) – como diabetes, hipertensão, câncer e doenças respiratórias – tem colocado o sistema de saúde brasileiro diante de um dos maiores desafios das próximas décadas. No Brasil, essas condições continuam sendo a principal causa de morte: em 2024, mais de 300 mil óbitos foram atribuídos a doenças crônicas, segundo dados preliminares do Painel de Monitoramento da Mortalidade Prematura do Ministério da Saúde e parceiros de pesquisa, o que reforça a necessidade de respostas estruturadas no cuidado contínuo desses pacientes.
Além de sua contribuição para a mortalidade, as doenças crônicas afetam a qualidade de vida e oneram o sistema de saúde: indivíduos com condições crônicas utilizam com maior frequência consultas médicas e internações, especialmente quando apresentam comorbidades e acesso desigual aos serviços.
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Publicado em 2026-05-06 07:03:03Nesse contexto, o modelo de atenção à saúde ainda se mostra majoritariamente reativo: muitos pacientes só recebem atendimento quando há agravamento do quadro, evidenciando lacunas na gestão contínua da doença e na prevenção eficaz. Essa abordagem fragmentada aumenta custos e reduz a eficácia do tratamento, intensificando a necessidade de um acompanhamento que transcenda intervenções pontuais.
Embora o Brasil tenha avançado em políticas de atenção básica e controle de doenças crônicas, o país ainda não está totalmente preparado para oferecer um cuidado verdadeiramente coordenado
Outro desafio crítico é a desigualdade no acesso ao cuidado, já que o acesso oportuno a diagnóstico, tratamento e acompanhamento é desigual no país, influenciado por fatores socioeconômicos e regionais, o que agrava ainda mais o impacto das doenças crônicas em populações vulneráveis.
A atenção primária à saúde, porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), tem papel fundamental nesse cenário. É nesse nível que se constrói o vínculo com o paciente, se acompanha a progressão das condições e se desenvolvem ações preventivas capazes de reduzir complicações ao longo do tempo. No entanto, o fortalecimento da atenção primária requer integração efetiva com outros níveis de cuidado, garantindo continuidade e coordenação eficazes.
A tecnologia também pode ser uma aliada importante. Ferramentas de monitoramento remoto, sistemas de gestão integrada e análise de dados clínicos permitem um acompanhamento mais proativo, auxiliando na detecção precoce de agravamentos, no ajuste de tratamentos e na tomada de decisão clínica antes que emergências ocorram.
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Além disso, é essencial ampliar o entendimento sobre o papel dos cuidados paliativos no manejo de pacientes crônicos. Ao contrário do senso comum, esses cuidados não estão restritos ao final da vida. Eles atuam desde o diagnóstico de condições complexas, com foco no controle de sintomas, no suporte emocional e na melhoria da qualidade de vida, oferecendo um modelo mais humanizado e centrado no paciente.
Cuidar de pacientes crônicos não é apenas prolongar a vida, mas garantir dignidade, conforto e suporte contínuo enquanto se convive com a doença. Embora o Brasil tenha avançado em políticas de atenção básica e controle de doenças crônicas, o país ainda não está totalmente preparado para oferecer um cuidado verdadeiramente coordenado, acessível e sustentável para esse grupo crescente de pacientes.
Para que o Brasil esteja realmente preparado para cuidar de pacientes crônicos, é necessário mudar o paradigma da saúde: passar de um modelo reativo para um cuidado contínuo, integrado e centrado no paciente, que combine atenção primária fortalecida, tecnologia, prevenção e cuidados paliativos. O desafio é grande, mas investir nesse caminho promove um sistema de saúde mais eficiente, humano e capaz de acompanhar as transformações demográficas e epidemiológicas do país agora e nas próximas décadas.
Samanta Gaertner Mariani é médica especializada em cuidados paliativos.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos