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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou neste mês um novo mapa-múndi como parte das comemorações pelos 90 anos de existência do órgão. A princípio, não seria nada de mais, mas nesse processo o instituto parece ter feito questão de menosprezar a inteligência dos brasileiros.
Assim como outros produtos made in IBGE, a arte do mapa-múndi “Riqueza de Espécies 2025” aparece “de ponta cabeça”, com a metade Sul na parte de cima, e com o Brasil ocupando a parte central. Decisões que, segundo o presidente do instituto, desafiam “séculos de visão eurocêntrica” e reposicionam o país no centro do debate sobre poder no planeta.
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Publicado em 2026-05-12 19:56:37“O IBGE transforma a cartografia em afirmação política e civilizatória, pois coloca o Brasil no centro, inverte o eixo Norte–Sul e revela os continentes em proporções reais”, resumiu Marcio Pochmann.
A questão principal nem é a inversão do eixo Norte-Sul, como destacado pelo presidente do IBGE. Afinal, a Terra tem um formato próximo ao esférico, e os conceitos de “para cima” e “para baixo”, quando observados em escala planetária, acabam sendo meras convenções político-sociais.
Principal problema está na escala do mapa
O mapa comemorativo em questão tem como objetivo representar a riqueza de espécies animais pelo mundo. De forma mais detalhada, o IBGE usou dados de diversas fontes para medir a quantidade potencial de espécies de anfíbios, pássaros, mamíferos, répteis, crustáceos e peixes de água doce nos países.
E é aí que está o problema maior: a escala utilizada no mapa vai apenas de “baixo”, nas cores vermelhas, a “alto”, em tons de verde. Sem nenhuma outra informação disponível, o Brasil se torna um grande ponto verde em meio ao vermelho dominante. E esse é o ponto que o IBGE quer vender: o de que o Brasil é o maior nicho de biodiversidade do planeta.
Mas quanto é esse maior? O que é preciso para ficar na porção verde do mapa? Qual é essa concentração de biodiversidade? Será 2, 3, 10 animais diferentes por km²? Quem olhar para o mapa pela internet ou na versão impressa – sim, o mapa está à venda por R$ 25 no site do IBGE, em português e inglês – não encontra essa informação.
A Gazeta do Povo entrou em contato com o instituto questionando o método utilizado para representar a biodiversidade. Afinal, em mapas qualitativos, como o lançado pelo IBGE, o objetivo é dar uma noção de escala dessa ou daquela informação presente no diagrama.
Em resposta, a assessoria de comunicação do órgão disse apenas que a opção por uma escala simplista, de “alto” a “baixo” foi tomada “para facilitar a compreensão pelo público geral/leigo”.
Como complemento da resposta, o IBGE informou que em uma das fontes de dados, a International Union for Conservation of Nature – União internacional pela Conservação da Natureza, em tradução livre –, o mapa foi dividido em uma grade em que cada célula tem 100km² de área.
Ganharam a cor vermelha e suas variações as localidades onde esses valores partem de 1. Do mesmo modo, do lado oposto, os tons mais intensos de verde representam localidades onde essa variedade é de mais de 1,8 mil espécies por célula de 100 km².
Assim, para o IBGE o brasileiro, em geral, não conseguiria entender, por exemplo, que um amarelo intermediário representaria algo em torno de 900 espécies por 100km².
Presidente do IBGE divulgou versão incompleta do mapa
Ao divulgar a imagem do novo mapa-múndi em seu perfil no X, Marcio Pochmann, presidente do IBGE, postou uma imagem onde era possível identificar duas palavras em latim sobre o continente africano: Lorem ipsum.
O termo é muito utilizado na produção de materiais gráficos e faz parte de um texto em latim que é costumeiramente diagramado quando se quer testar um layout. Em outras palavras, o Lorem ipsum é um forte indicativo de que o produto gráfico, qualquer que seja, ainda não está finalizado.
À reportagem, a assessoria de imprensa do IBGE minimizou o caso dizendo que “o artefato se deve provavelmente a algum erro na geração ou inserção da imagem na página”. Nas versões oficiais, digital e impressa, não há nenhum Lorem ipsum, afirmou a nota da assessoria.
Nova representação dos países é “mais justa e descolonizada”
Além de aparecerem invertidos em relação aos mapas tradicionais, o formato dos continentes também chama a atenção pela aparente distorção. Para o IBGE, isso está longe de ser um defeito: é uma característica inovadora do produto.
A nova projeção, chamada de Equal Earth, é descrita como algo moderno, que segue a curvatura da Terra e representa os continentes em proporções reais. Mais do que isso: o novo mapa traria uma visão mais “justa e descolonizada do mundo, corrigindo o viés eurocêntrico presente em mapas tradicionais e servindo como uma ferramenta educacional e de representação mais equilibrada”.
“[Foi] Criada em 2018 por Bojan Šavri?, Tom Patterson e Bernhard Jenny, com o objetivo principal de oferecer um mapa-múndi que não distorcesse as formas e mantivesse a equivalência das áreas das massas de terra, ou seja, que fosse visualmente agradável e mais realista”, descreve o IBGE, em sua página.
Mapas diferentes geraram críticas internas no IBGE
O primeiro mapa-múndi com o Brasil no centro foi lançado pelo IBGE em 2024, durante a presidência do país no G20. O primeiro mapa invertido veio no ano seguinte, em 2025, como parte das comemorações em torno da COP30 no Brasil.
A série de mapas que apresenta o Brasil ao centro e inverte a posição norte-sul já gerou resistência dentro do próprio instituto. Em 2025, entidades sindicais de servidores afirmaram que o mapa “distorcia a realidade” e classificaram a proposta como uma “encenação simbólica”, sem respaldo nas convenções cartográficas internacionais e potencialmente prejudicial à credibilidade do órgão.