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“Então, por que você se tornou católico?”, perguntou-me certo dia um colega de pós-graduação, com um leve tom de flerte na voz. Sorri e usei a famosa frase de John Henry Newman: a resposta era longa e não podia ser dada “entre o peixe e a sopa”. “Bem”, ela respondeu, “não estamos comendo peixe”. Ela tinha razão, e eu tive de falar.
Tentei explicar como fui catequizado por evangélicos, me apaixonei pelo anglicanismo da High Church [mais próximo às práticas católicas], aprendi mais sobre a história e a tradição da Igreja, experimentei a beleza da Eucaristia, e então cheguei à conclusão de que tudo isso era vivido e acreditado mais plenamente na Igreja Católica. A minha foi uma conversão intelectual, que se aprofundou à medida que vivi e trabalhei com católicos devotos nos anos seguintes. Ela também se encaixava muito em um padrão. Embora eu só soubesse disso parcialmente à época, eu estava seguindo uma trilha aberta por John Henry Newman no século 19 e percorrida por milhares de outros depois dele.
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Publicado em 2026-05-11 08:31:02Notícias recentes têm destacado o aumento do interesse pelo catolicismo, especialmente entre jovens de centros urbanos como Londres e Nova York. Eles falam do desejo por raízes profundas na história cristã, pela beleza da liturgia, por um senso de propósito e por uma base moral para a vida em meio a um mundo em constante mudança. São as mesmas razões que os convertidos ao catolicismo têm dado há mais de 100 anos. Em seu recente livro Converts: From Oscar Wilde to Muriel Spark, Why So Many Became Catholic in the 20th Century, a jornalista britânica Melanie McDonagh conta a história de grandes intelectuais britânicos convertidos e apresenta alguns motivos pelos quais eles se converteram. Os retratos feitos por McDonagh são detalhados e envolventes, uma mistura de biografia reflexiva e análise salpicada de frases espirituosas. Ela mostra a conversão como algo ao mesmo tempo humano e divino, um mistério da graça no qual emergem certos padrões sociológicos. Quatro temas se destacam como marcas duradouras dos convertidos, dos vitorianos aos da geração Z.
Os convertidos falam do desejo por raízes profundas na história cristã, pela beleza da liturgia, por um senso de propósito e por uma base moral para a vida em meio a um mundo em constante mudança
Argumentos e a Verdade
Para alguns católicos, como Evelyn Waugh e Graham Greene, a conversão foi um salto do ateísmo para a fé em Deus. Outros já eram cristãos, embora vindos de denominações protestantes. Todos compartilhavam uma pergunta fundamental: se a Igreja Católica era a continuação natural e verdadeira da Igreja primitiva – iniciada com os apóstolos no Cenáculo e espalhada pelo mundo –, tendo autoridade para ensinar e governar em nosso tempo. Se a resposta a essa pergunta fosse “sim”, as consequências necessárias eram óbvias.
Desde o reinado de Elizabeth I, a Igreja Anglicana havia sido uma tentativa de reconciliar crenças teológicas conflitantes por meio de culto e governo comuns. Os convertidos consideravam isso insustentável. Em contraste, a clareza da doutrina católica era atraente, tanto no que a Igreja ensinava quanto na maneira como ensinava. Robert Hugh Benson era filho de um arcebispo de Canterbury; ele foi ordenado sacerdote católico e se tornou romancista. Benson não conseguia aceitar que, em algumas questões fundamentais, a Igreja da Inglaterra permanecesse inconclusiva. Ele descreveu sua conversão como uma busca por uma verdade firme e segura sobre a qual pudesse se apoiar: “Eu não queria ir para lá e para cá conforme minha própria vontade. Queria conhecer o caminho no qual Deus queria que eu andasse. Não queria ser livre para mudar meu entendimento da verdade. Precisava, antes, de uma verdade que, ela própria, me tornasse livre”.
Décadas depois, Graham Greene escreveu à sua futura esposa, também convertida: “Mesmo assim sinto que quero ser católico agora, até um pouco independentemente de você. Deseja-se desesperadamente algo firme, sólido e certo, por mais desconfortável que seja, a que se possa agarrar em meio ao fluxo geral”. Greene passaria grande parte de sua vida pessoal e de sua ficção desafiando – na verdade, violando flagrantemente – esses limites. Mas, como observa McDonagh, o catolicismo elevou o peso da vida humana para Greene. No seu mundo de moralidade em preto e branco e destino eterno, decisões humanas individuais tinham enormes consequências, algo que ele exploraria em O Poder e a Glória, O Cerne da Questão e Fim de Caso.
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O exemplo e os argumentos de John Henry Newman convenceram muitos convertidos que buscavam certeza religiosa a deixarem a Igreja da Inglaterra rumo a Roma. Muriel Spark escreveu que “foi por meio de Newman que me tornei católica”. Quando o poeta Siegfried Sassoon leu Newman, comentou: “Pergunto-me que efeito isso teria causado se alguém me tivesse dado isso dez anos antes. Tudo o que eu precisava está ali, esperando por mim!” Newman mandou inscrever em seu túmulo a frase ex umbris et imaginibus in veritatem – “das sombras e imagens para a verdade”. Católicos posteriores, como o artista David Jones, também descreveriam a Igreja Católica como sendo “real” de uma maneira que as igrejas anglicanas e protestantes não eram, uma realidade que eles percebiam em certos padres, na missa ou na vida devocional dos católicos comuns.
Convertidos são gente esquisita
Talvez a maioria dos convertidos ao catolicismo seja normal, mas os convertidos intelectuais tendem a ser esquisitos. McDonagh começa sua história com os chamados “Decadentes” do fim do século 19: um movimento estético na França e na Inglaterra que se rebelou contra a industrialização, rejeitando a moralidade e abraçando o excesso sensual. Na França, o exemplo mais famoso foi J. K. Huysmans, cujo personagem semiautobiográfico Durtal abandona o satanismo parisiense para tornar-se católico, terminando a vida como oblato em um mosteiro trapista. Do outro lado do Canal da Mancha, Oscar Wilde e grande parte de seu círculo acabaram se convertendo ao catolicismo. McDonagh argumenta que, embora o catolicismo fosse ao mesmo tempo belo e transgressor – os valores máximos do decadentismo –, no fim das contas “foram os conceitos de pecado e redenção que mais importaram” para esses estetas.
No início do século 20, enquanto servia como sacerdote em Cambridge, Hugh Benson atraiu muitos universitários para seu ministério. O convertido anglo-irlandês Shane Leslie os descreveu como uma “panelinha de ritualistas errantes, estetas com ou sem senso moral, reformadores da Igreja e do Estado – enfim, toda a nascente irmandade de excêntricos, para cada um dos quais ele buscava seu lugar apropriado dentro da estrutura multifacetada da Igreja”. Pouca coisa mudou em 100 anos!
Talvez a maioria dos convertidos ao catolicismo seja normal, mas os convertidos intelectuais tendem a ser esquisitos
Do tempo de Newman até hoje, os convertidos são vistos com suspeita, tanto dentro quanto fora da Igreja, e podem ser difíceis de lidar. São como estrangeiros em um novo país ou membros recém-adotados de uma família. Eles perturbam o funcionamento habitual da Igreja, sobretudo por seu zelo pelo que ela supostamente deve crer e professar. Evelyn Waugh passou grande parte da vida criticando ferozmente o mundo moderno, mas, após as mudanças litúrgicas do Concílio Vaticano II, começou a direcionar sua irritação à hierarquia católica. Como observa McDonagh, “precisamente porque [Waugh] era um convertido sem formação na deferência, ele tinha pouca paciência para aquilo que via como um liberalismo autoritário excessivo por parte dos bispos e para a destruição do que havia de permanentemente valioso na Igreja”. Mais recentemente, defensores do pontificado de Francisco demonstraram repetidamente sua frustração com os convertidos americanos, o que me inspirou a inventar um coquetel chamado “Neurose do Convertido”.
Perdão e beleza
G. K. Chesterton escreveu certa vez que existem apenas duas razões fundamentais para alguém entrar na Igreja Católica: “Uma é acreditar que ela seja a verdade objetiva e sólida, verdadeira, quer se goste disso ou não; e a outra é se libertar dos próprios pecados”. Para os Decadentes em particular, o poder de distinguir claramente vício e virtude e absolver os pecados pelo sacramento da confissão teve enorme impacto.
Aubrey Beardsley foi um jovem ilustrador e escritor que morreu de tuberculose aos 25 anos. O escritor Max Beerbohm disse que “ele sabia que a vida era curta e, por isso, amava cada hora dela com uma espécie de intensidade ciumenta”. Beardsley tornou-se católico um ano antes de morrer, escrevendo ao poeta (e posteriormente sacerdote) John Gray: “É um alívio enorme ser acolhido depois de toda a minha errância”. E Evelyn Waugh refletiu de forma famosa sobre o poder da graça em sua própria vida: “Sempre penso comigo mesmo: ‘Sei que sou terrível. Mas seria muito mais terrível sem a Fé’. Uma das alegrias da vida católica é reconhecer as pequenas centelhas de bem em toda parte, assim como os fogos dos santos”.
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Outra grande alegria para muitos convertidos estava nas tradições litúrgicas da Igreja Católica, em especial sua continuidade histórica. Para David Jones, o princípio da sacramentalidade fundamentava não apenas a teologia, mas toda a arte. Uma pintura, argumentava ele, não apenas representa seu objeto, mas é o próprio objeto sob outra forma – uma analogia clara com a doutrina da transubstanciação. E Jones se maravilhava com o fato de que a missa o conectava à Antiguidade e a toda a história da Grã-Bretanha, tanto por proporcionar a mesma experiência viva de oração e ritual quanto por tornar presente o mesmo Cristo.
A narrativa de McDonagh termina com esse senso de continuidade sendo rompido pelas reformas do Vaticano II e pela revolução cultural “parcialmente intencional” que se seguiu ao Concílio. O problema não eram apenas as mudanças na liturgia e no espírito da teologia, mas também a maneira autoritária e vertical com que foram implementadas. Muitos convertidos sentiram-se traídos. Quando participou de uma das “novas” missas, Elizabeth Anscombe comentou ao filósofo Anthony Kenny: “Esta não é a Igreja à qual me converti”. Kenny, então sacerdote, respondeu: “Também não é a Igreja na qual fui ordenado”. McDonagh acredita que não é coincidência o fato de o número de convertidos ter despencado após o Concílio e nunca mais ter se recuperado plenamente.
A conversão hoje
Ainda assim, ela argumenta que muitos jovens continuam se convertendo pelas mesmas razões de seus predecessores, embora poucos o façam pela beleza da liturgia. Talvez esse seja o caso na Inglaterra, mas não tanto nos Estados Unidos. Muitos convertidos americanos mencionam explicitamente a liturgia como motivo para a conversão, encontrando nela uma fonte de beleza e consolo. Talvez isso aconteça porque a reverência litúrgica hoje seja mais comum do que antes; dificilmente é coincidência que muitas das igrejas com mais convertidos sejam justamente aquelas com missas mais reverentes e frequentes.
“Os convertidos têm muita tendência a serem censórios e a fazer a tentativa fatal de serem mais católicos que os católicos.”
Lord Alfred Douglas, que se converteu ao catolicismo após ler uma encíclica do papa Pio X.
McDonagh observa que, em 2021 e 2022, o número de recepções à Igreja na Inglaterra ficou abaixo de 2 mil por ano – o menor número em todo o período abordado em seu livro. Mas os números continuaram a crescer, ultrapassando 3 mil em 2024. Em 2025, um relatório documentou que, de 1992 a 2024, aproximadamente 700 clérigos e religiosos anglicanos foram recebidos na Igreja Católica, incluindo 16 ex-bispos anglicanos. Um terço das ordenações diocesanas e do Ordinariato Anglicano [criado por Bento XVI em 2009 para acolher anglicanos] nesse período foi de ex-clérigos anglicanos. Para botar a cereja no bolo, John Henry Newman foi canonizado e depois declarado Doutor da Igreja.
O relato de McDonagh traz lições para jovens convertidos e para aqueles curiosos sobre o catolicismo hoje. Lord Alfred Douglas, amante de Oscar Wilde que posteriormente se converteu após ler a encíclica antimodernista Pascendi Dominici Gregis, observou: “Os convertidos têm muita tendência a serem censórios e a fazer a tentativa fatal de serem mais católicos que os católicos. Sou católico há mais de 20 anos e espero agora ser muito mais caridoso e aberto do que era logo antes da minha conversão ou por muitos anos depois dela”. Os convertidos têm muito a aprender com os membros mais antigos da família à qual estão se unindo. E, em uma era de discursos agressivos na internet, os convertidos deveriam lembrar a advertência de Newman para não zombar do culto protestante: “Tal ridicularização não é a arma daqueles que desejam salvar almas”.
No fim das contas, a questão enfrentada pelos convertidos hoje é a mesma enfrentada pelos Decadentes, por Waugh, Greene e tantos outros antes deles: permanecerão firmes na fé e permitirão que a graça transforme suas vidas? Pois, embora a conversão possa envolver amor pela beleza, fome de segurança doutrinária, o fascínio da transgressão ou desejo pelo perdão dos pecados, ela é, em última análise, um profundo mistério da graça e, portanto, ultrapassa nossa compreensão. Como disse o padre jesuíta Cyril Martindale: “Quando os homens compreenderão que existe um grande abismo entre o que é católico e o que é qualquer outra coisa? Você precisa ter uma ponte. Talvez Deus o arraste através dela, enquanto você esperneia e se debate. Não é a história, nem a psicologia, nem a filosofia, nem a necessidade de autoridade, nem o amor pelo simbolismo, nem qualquer outra coisa criada que faz isso, mas Deus o faz, Cristo o faz, a Graça o faz”.
Nathaniel Peters é editor do site The Public Discourse e diretor do Morningside Institute.
©2026 The Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês: Catholic Converts, Then and Now