O deputado NiKolas Ferreira (em primeiro plano, à esquerda), o pastor Silas Malafaia (ao centro, com microfone) e o senador Flávio Bolsonaro (à direita) falam a apoiadores de Jair Bolsonaro em outubro de 2025. (Foto: Joedson Alves/Agência Brasil)

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Por mais coesos que sejam os grupos políticos, existem neles divergências de opinião, de método, de objetivo e de estratégia a seguir. É da natureza humana que assim seja. Ainda que se considere que o agir político é um agir coletivo, a opinião política é individual – e ela é tão diversa como diversas são as pessoas.

Em vez de “diversidade”, palavra desgastada pelo uso político, talvez a expressão que melhor signifique a realidade das disparidades de opinião seja “pluralidade”. O conjunto de opiniões de uma pessoa é talvez tão único quanto sua impressão digital. Por mais que duas pessoas pensem de forma parecida, nunca haverá plena identidade entre seus pensamentos. A divergência, por menor que seja, é parte da natureza humana e, consequentemente, da vida em sociedade.

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É de se imaginar, portanto, que campos políticos tão amplos como “a direita” ou “a esquerda” contenham em si pessoas com visões de mundo e programas políticos bastante distintos, ainda que compartilhem o suficiente para estarem no mesmo grupo. Não é surpresa, portanto, que haja enfrentamentos políticos dentro de um mesmo espectro ideológico, ou mesmo dentro de um projeto eleitoral único.

Não é nada excepcional haver divergência dentro da “direita”. O excepcional é que a divergência não encontre outro canal que não o embate público via redes sociais

Em outras palavras: não deveria surpreender que, na da base de apoio de um candidato presidencial como Flávio Bolsonaro, haja contraposições fortes, como as que estão aparecendo entre Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro – e seus seguidores. Não é nada excepcional o fato de divergirem, dentro da “direita”, sobre a forma de enfrentar os adversários, sobre o tipo de aliança que se deve fazer, sobre as pautas e bandeiras a serem defendidas, sobre os candidatos nos estados. O que é excepcional é que esta divergência não encontre outro canal que não o embate público via redes sociais.

As democracias ocidentais produziram instituições nas quais a pluralidade de opiniões dentro de um campo político encontra um espaço de debate de deliberação: os partidos políticos. É nos partidos que o debate, institucionalizado, acontece. É na plenária que as bases se encontram, as teses se contrapõem, as alternativas são analisadas. Pelo voto ou pelo acordo, são construídos os consensos.

O consenso não é o ponto de partida de uma construção política – ele é o ponto de chegada. O diálogo começa na divergência, e as convergências vão sendo construídas. Isso requer espaços de diálogo – e esses espaços deveriam ser providos pelas instituições partidárias.

Os partidos políticos tornaram-se apenas carimbadores de candidaturas e veículos para a distribuição dos vultosos fundos partidários e eleitorais

Pode parecer contraditório, mas, quando se derramaram rios de dinheiro sobre os partidos, faliu o sistema partidário. O bate-boca nas redes sociais é apenas mais um sintoma disso. Os partidos abdicaram de ser a ágora na qual aqueles que divergem dentro de um campo político vêm debater e construir convergências. Tornaram-se apenas carimbadores de candidaturas e veículos para a distribuição dos vultosos fundos partidários e eleitorais. Sua principal função, a de amalgamar divergências e consagrar candidaturas capazes de unir seus campos políticos, ficou em segundo plano. Não se discute ideologia, não se discute programa. Discute-se apenas quem leva uma fatia maior de recursos.

Na esquerda, o PT, com suas diferentes alas, ainda vive ecos de um tempo em que os partidos debatiam internamente, principalmente em âmbito local e estadual. O personalismo de Lula, entretanto, tem contribuído para soterrar qualquer resquício da outrora incensada “democracia interna”. No Rio Grande do Sul, por exemplo, as instâncias do partido tinham escolhido Edegar Pretto para a disputa do governo gaúcho, mas Lula interveio e impôs uma aliança com Juliana Brizola, do PDT, neta de Leonel Brizola, ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro.

Se o velho PT, nascido e organizado nos anos 80, já não consegue fazer valer as decisões das bases, o que dizer da direita? O maior partido do campo, o PL, vive uma bicefalia, com Valdemar Costa Neto e Jair Bolsonaro dividindo decisões, e ainda sem poder conversar frequente e normalmente. Falta ao partido o costume do debate interno, a prática da deliberação coletiva e o exercício da busca da convergência pelo diálogo.

A direita precisa avançar na sua organização política, e transcender a personalidade de suas lideranças

A pressão interna, sem encontrar os meios internos de conciliação, explode pelas redes sociais. Quem deve ser o candidato do partido ao Senado em São Paulo? Em vez de reunir as bases e escolher quem melhor representa os filiados em uma convenção, a solução é salomônica: Jair indica um, Valdemar o outro. A discussão, que deveria preceder a escolha, acaba derivando dela.

Até aqui, essa nova direita pôde chegar sem constituir-se de baixo para cima. Um pouco arrastada pela liderança de Bolsonaro (o Jair), um pouco nascida do impeachment de Dilma Rousseff e das manifestações do tempo da Lava Jato, a direita se reestabeleceu politicamente no Brasil. Sim, se reestabeleceu, mas não se reorganizou – no sentido mesmo de organização: uma instituição política com órgãos internos e espaços de debate.

Para perdurar e estabelecer um projeto de transformação sustentada do país, depois de cinco mandatos presidenciais do PT, a direita precisará avançar na sua organização política, e transcender a personalidade de suas lideranças. O amadurecimento dessa nova direita passa por criar os ambientes internos para que a divergência aconteça sem traumas, para que ela seja parte natural do saudável processo de discordar, debater, e construir convergência onde antes havia divergência. Só assim os debates serão construtivos, e não conflitivos.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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