(Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

Ouça este conteúdo

A disputa pelo Senado por São Paulo tem gerado divergências entre nomes da Oposição ao governo Lula, desde que Eduardo Bolsonaro anunciou apoio a André Prado (PL-SP). Houve tensão entre Eduardo e o deputado Ricardo Salles (Novo-SP), pré-candidato ao Senado. Depois desses episódios, o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, disse que vai processar Salles, por ter sido acusado de corrupção pelo parlamentar. Em conversa com a coluna Entrelinhas e ao programa Sem Rodeios, Salles fala sobre o Centrão ser um "inimigo comum" dos dois grupos e aponta a possibilidade de negociação com o Partido Liberal (PL), caso alguém alinhado com os conservadores seja a opção do partido.

Entrelinhas: Como o senhor avalia o cenário da disputa pelo Senado em São Paulo?

Recomendamos para você

Salles: Eu sempre defendi que o Centrão é quase tão ruim quanto a esquerda, para não dizer até pior, porque ele se finge de direita, se mistura nos grupos de direita, faz esquema dentro dos governos de direita. Mas, na primeira oportunidade, quando a esquerda oferece mais vantagens, mais dinheiro, mais verba, o Centrão vota com a esquerda e apoia a esquerda. Então eu entendo que o Centrão, tanto quanto a esquerda, precisa ser eliminado da vida pública brasileira. Claro que isso é uma utopia, mas tudo o que puder ser feito para diminuir o peso dele e aumentar o peso da verdadeira direita, daqueles que defendem família, propriedade privada e que não votam no PT de jeito nenhum, nós temos que fazer.

Entrelinhas: E o que está acontecendo especificamente em São Paulo nessa disputa?

Salles: Nós tínhamos dois senadores já colocados, o Derrite e eu, e, de repente, o PL resolve colocar o pupilo do Valdemar, o André do Prado, para ser o candidato da direita. Ora, o André do Prado foi candidato junto com a Dilma em 2010, quando começou a carreira dele. Ele tem esse DNA do Centrão, que é estar junto com o governo, não importa qual seja, inclusive o do PT atualmente. A turma valdemarista do PL está toda pendurada no governo Lula, tem cargo no governo, vota no governo, recebe emendas adicionais. Então, quem é de direita de verdade não pode permitir que o Centrão lance um candidato se dizendo de direita para depois fazer o que sempre faz: se eleger com os votos da direita e, no dia seguinte da eleição, voltar ao seu modo de operação.

Entrelinhas: O senhor acredita em uma possível conciliação dentro do campo da direita em São Paulo?

Salles: Eu deixei claro: se o candidato do PL for o coronel Mello Araújo, que é um cara verdadeiramente de direita, honesto e paulista, eu abro mão da minha candidatura. Não sendo ele, eu vou levar minha candidatura até o final.

Entrelinhas: Como o senhor tem lidado com críticas, possíveis ataques e desgastes recentes?

Salles: Eu lamento que tenha ido por esse caminho. Talvez eu tenha sido um pouco duro em relação ao Eduardo Bolsonaro em uma entrevista anterior. Eu gosto do Eduardo, ele é uma boa pessoa, mas ele fez acusações que não são verdadeiras. Expliquei isso, talvez acima do tom. Mas não vou continuar esse debate com ele, até porque o nosso inimigo é o Centrão, é a corrupção. Temos que derrubar a esquerda, mas também não adianta colocar o Centrão na garupa, porque ele vai bater sua carteira na primeira oportunidade.

Entrelinhas: O senhor diz que o Centrão aderiu ao PT. Como vê essa relação hoje?

Salles: O PT faz uma coisa inteligente nesse ponto: ele compra o Centrão e o Centrão faz o que ele quer. Já a direita faz uma coisa burra, que é aderir à pauta do Centrão. O Centrão acaba mandando na direita. Nós temos que ser muito duros em relação a isso. O Centrão é o câncer do Brasil. Basta olhar os escândalos recentes: INSS, jogos ilegais, combustíveis, desvios de emenda. O Centrão está envolvido em tudo.

Entrelinhas: Muitos eleitores da direita cobram uma postura mais firme do Senado em relação ao STF. Caso seja eleito senador, o senhor pretende enfrentar o Supremo?

Salles: Claro. Essa é uma situação que o Brasil inteiro enfrenta e reconhece. Eu só tenho defendido uma coisa: além de dar essa resposta direta, que precisa ser dada, a gente não pode cometer o mesmo erro deles de já sair dizendo “vai acontecer isso ou aquilo”. Nós estamos criticando justamente a falta de observância do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório. Então, a gente também precisa respeitar isso. Mas, evidentemente, todos aqueles que pretendem ir ao Senado têm que ter, desde logo, a liberdade e o desprendimento para dar uma resposta clara como essa que eu estou dando aqui.

Entrelinhas: Como senhor avalia as recentes articulações internacionais do governo Lula, especialmente a aproximação com os Estados Unidos e os movimentos econômicos envolvendo grandes grupos financeiros?

Salles: Não podemos subestimar o Lula. Ele está no terceiro mandato e o PT joga abaixo da linha da cintura. Eles não poupam esforços para se reeleger. Todo esse pessoal que estava no ostracismo voltou para a máquina pública adotando as piores práticas de corrupção, incompetência e má administração. Eles não têm freio moral para nada. O Lula não está com 12% de apoio, ele está com quarenta e poucos por cento. Então não podemos subestimá-los.

Entrelinhas: Como o senhor interpreta os movimentos do governo em relação à segurança pública e ao crime organizado?

Salles: Eles estão tentando se conectar com os Estados Unidos para evitar sanções e também evitar a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. O PT sabe fazer campanha e nós precisamos jogar nos erros deles. Hoje, graças às redes sociais e à internet, a população consegue se informar muito mais rápido. Mesmo com toda a máquina estatal e o dinheiro que eles têm, nós temos algumas armas também: a verdade, o bom senso, a racionalidade.

Entrelinhas: O senhor acredita que as eleições deste ano terão um clima diferente de 2022, especialmente com a mudança na presidência do TSE, com Nunes Marques?

Salles: Eu acho que nós não teremos o problema da falta de imparcialidade que experimentamos em 2022. Naquele momento, o Tribunal Superior Eleitoral estava engajado com um lado. Não havia imparcialidade, que é um requisito fundamental da Justiça Eleitoral. Com a atual composição do TSE, tendo o ministro Nunes Marques na presidência e André Mendonça na vice, eu não digo que o tribunal estará ao nosso lado. O importante é que seja isento e imparcial. Funcionando assim, isso acaba nos favorecendo, porque nós temos boas propostas e podemos apontar os erros, os escândalos de corrupção e as fragilidades do governo Lula. Em 2022, muitas vezes não podíamos nem mostrar as nossas posições nem criticar os adversários. Só o fato de reequilibrar isso já muda completamente o jogo.

Caso do detergente Ypê é mais grave do que parece