Segurança energética e custo: o preço das escolhas

Como a gestão dos reservatórios e os parâmetros dos modelos impactam tarifas, investimentos e a confiabilidade do sistema

O debate sobre o nível de água nos reservatórios das hidrelétricas voltou ao centro da agenda do setor elétrico. À primeira vista, trata-se de uma discussão técnica. Na prática, é uma escolha que afeta diretamente a conta de luz, a segurança do suprimento e a previsibilidade para quem investe.

No Brasil, a operação do sistema é guiada por modelos computacionais que equilibram custo e risco. Um dos instrumentos mais relevantes é o parâmetro de aversão ao risco, o CVaR, que, de forma simplificada, define o quanto o sistema se protege contra cenários hidrológicos desfavoráveis. Quanto maior a cautela, maior a tendência de preservar água nos reservatórios e acionar térmicas antes. Quanto menor, mais se usa água agora, reduzindo custos imediatos, mas diminuindo a margem de segurança para o futuro.

O papel dos reservatórios

Reservatórios não são apenas “estoque de energia barata”. Eles são o principal mecanismo de flexibilidade do sistema elétrico brasileiro. Em um contexto de crescimento de fontes renováveis variáveis, como eólica e solar, essa função se torna ainda mais relevante.

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Essas fontes são essenciais para a expansão da matriz, mas não substituem o papel dos reservatórios na garantia de flexibilidade e segurança do sistema. É justamente aí que eles entram, funcionando também como uma espécie de seguro operacional.

Reduzir esse “seguro” pode gerar economias no curto prazo. Mas também pode exigir, mais adiante, medidas mais custosas, como despacho térmico fora dos modelos ou contratações emergenciais, com impacto direto nas tarifas. Também não se pode afastar o risco de não atendimento ao consumo, com episódios de interrupção no fornecimento, os temidos blackouts.

O custo de errar na calibragem

A história recente do setor ilustra bem esse dilema. Após um período de menor rigor na gestão do risco, o país enfrentou, em 2021, a pior crise hídrica em décadas. A resposta exigiu o acionamento intensivo de usinas térmicas já existentes e a contratação emergencial de novas unidades, o que acabou se traduzindo em encargos relevantes para os consumidores.

Não se trata de afirmar que um único fator explique aquele episódio, mas de reconhecer que a calibragem do risco importa, e muito.

Estudos recentes indicam que diferentes parametrizações podem, de fato, reduzir custos em determinados cenários. Ao mesmo tempo, mostram que essas escolhas alteram a trajetória de armazenamento dos reservatórios e a exposição do sistema a eventos extremos. Ou seja, não existe solução sem trade-off.

O que o preço está (ou não) sinalizando

Um aspecto central nesse debate é a qualidade dos sinais econômicos. O preço de curto prazo da energia deve refletir, tanto quanto possível, as condições reais de operação. Hoje, esse preço sequer reflete o despacho térmico efetivamente realizado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico, com custos sendo deslocados para fora do preço da energia, via encargos, o que distorce os sinais econômicos.

Quando o modelo antecipa riscos, ele tende a sinalizar preços mais aderentes ao custo de preservar a segurança sistêmica. Por outro lado, decisões que comprimem esses sinais podem deslocar custos para encargos setoriais, menos transparentes para o consumidor e mais difíceis de gerenciar pelo mercado.

A calibragem da aversão ao risco não afeta apenas a operação do sistema, mas também a distribuição de custos entre mercado e encargos, um tema sensível para investidores, empresas e consumidores.

Por que a previsibilidade importa

Outro ponto importante é a dimensão institucional. Os parâmetros dos modelos precisam dialogar com o planejamento da expansão, com a operação e com a formação de preços. Mudanças abruptas ou desconectadas dessas três dimensões podem gerar ineficiência, ruído regulatório e afetar diretamente decisões de investimento. O setor elétrico brasileiro vem estruturando, ao longo dos anos, uma governança que integra esses elementos. Manter essa coerência é tão importante quanto continuar aprimorando os modelos.

Nesse contexto, o país conta hoje com uma política pública estruturada voltada à preservação dos reservatórios. Instituído por lei, o Plano de Recuperação dos Reservatórios estabelece diretrizes e ações para recompor a capacidade de armazenamento e aprimorar a gestão do risco hidrológico ao longo desta década. Isso, na prática, aponta uma direção clara de política energética: os reservatórios são um ativo estratégico para a segurança do sistema e sua gestão deve refletir essa prioridade.

Esse alinhamento reforça que a discussão sobre aversão ao risco nos modelos não ocorre de forma isolada. Ela precisa dialogar com essa diretriz mais ampla, que reconhece o papel central dos reservatórios na confiabilidade do suprimento e na mitigação de custos no longo prazo.

Onde está o equilíbrio

Esse debate não se resume a escolher entre custo baixo e segurança alta. O desafio é encontrar o equilíbrio certo para um sistema em transformação. A expansão das novas fontes renováveis é um avanço inegável. Essas fontes renováveis não controláveis são fundamentais para a expansão da oferta de energia elétrica no país, mas aumentam a necessidade de instrumentos que garantam a confiabilidade do sistema.

No fim, a pergunta é menos sobre quanto custa ser prudente e mais sobre quanto pode custar não ser.

* Marisete Pereira é presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (Abrage)

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Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/infra/seguranca-energetica-e-custo-o-preco-das-escolhas/