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Os frutos de uma viagem de um governante brasileiro aos Estados Unidos podem ser muitos… Inclusive votos para governar o próprio país norte-americano. Sim, isso realmente aconteceu. Mas é claro que eu não falo sobre a visita de Lula a Trump. Eu falo de Dom Pedro II, em 1876.
Durante sua visita aos Estados Unidos, documentos da época apontam que o Imperador brasileiro recebeu entre 4 e 15 mil votos simbólicos para presidente dos Estados Unidos. Votos de americanos impressionados com sua postura intelectual, seu interesse por ciência e tecnologia e sua visão de desenvolvimento econômico. O oposto da imagem que o atual presidente projeta.
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Publicado em 2026-05-13 17:42:40Na época, enquanto grande parte da elite latino-americana ainda voltava os olhos apenas para a Europa, Dom Pedro II percebeu cedo o potencial econômico e industrial americano, aproximando relações comerciais e incentivando avanços de infraestrutura e modernização no Brasil.
E, de lá para cá, diversos outros governantes brasileiros mantiveram e aprofundaram a relação. Um dos exemplos mais marcantes foi Getúlio Vargas, que, em 1942, alinhou o Brasil aos americanos durante a Segunda Guerra Mundial no combate ao nazismo. Até Getúlio Vargas, um dos presidentes mais autoritários que já tivemos, entendia a importância de se aliar à maior democracia ocidental do século XX.
E essa aproximação também trouxe resultados concretos para a nossa economia. A parceria construída naquele período garantiu apoio americano para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional. Pela primeira vez, o Brasil passou a produzir o próprio aço, deixando de depender totalmente do exterior e abrindo caminho para o crescimento da indústria automobilística, ferroviária e de construção civil.
Outro nome emblemático na consolidação da parceria foi Eurico Gaspar Dutra. Em 1947, no início da Guerra Fria, Dutra assinou o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, alinhando o Brasil ao bloco liderado pelos Estados Unidos, e rompeu relações diplomáticas com a União Soviética de Josef Stalin.
Em um mundo dividido entre democracia liberal e expansionismo do autoritarismo soviético, o Brasil escolheu se aproximar das nações ocidentais.
E esses são só três exemplos. Depois disso, ainda vieram os avanços de infraestrutura e industrialização do governo JK, impulsionados por investimentos e pela aproximação econômica com os Estados Unidos; o próprio regime militar, que, apesar de todas as suas contradições, aprofundou projetos de modernização dentro do eixo ocidental da Guerra Fria; e, décadas depois, a relação entre Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton, vista como um símbolo de estabilidade econômica e aproximação diplomática entre as duas maiores democracias do continente.
Durante décadas, o Brasil construiu uma tradição diplomática baseada em pragmatismo, neutralidade e defesa dos próprios interesses nacionais. O país era visto como um mediador confiável, capaz de dialogar com diferentes potências sem se tornar satélite ideológico de nenhum bloco. Não por acaso, figuras como Oswaldo Aranha ajudaram a consolidar o protagonismo internacional brasileiro, a ponto de o Brasil abrir tradicionalmente a Assembleia Geral da ONU até hoje.
Agora, olhe para 2026. O governo Lula rompeu completamente com essa lógica. Sua política externa abandonou o pragmatismo histórico brasileiro para aderir a uma visão profundamente ideológica do mundo, baseada na divisão entre um suposto “Sul Global” oprimido e democracias ocidentais tratadas como potências imperialistas.
Lula aproximou o Brasil de ditaduras, relativizou violações de direitos humanos e inseriu o país em agendas cada vez mais hostis ao Ocidente
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O exemplo mais claro veio na recente cúpula dos BRICS, esvaziada pela ausência de Xi Jinping e Vladimir Putin, onde Lula assumiu protagonismo em discursos contra a hegemonia do dólar nas transações internacionais e reforçou a retórica antiamericana do bloco. E foi esse, justamente, o pontapé inicial para a guerra de tarifas contra os EUA na qual estamos inseridos até hoje.
E o problema vai muito além. Lula relativizou a ausência de eleições livres na Venezuela, aproximou-se da China enquanto integrantes do governo discutiam modelos de regulamentação das redes sociais inspirados em um país sem liberdade de expressão e enviou o vice-presidente Geraldo Alckmin para a posse do novo presidente do Irã, em uma cerimônia em que estava a poucos metros de Ismail Haniyeh, então chefe do Hamas. Cultural e diplomaticamente, o afastamento do Ocidente é cada vez mais evidente.
E agora, aos 45 do segundo tempo, acontece a fatídica reunião entre Lula e Trump, numa tentativa de reconstruir sua imagem desgastada pela maneira como conduziu a relação entre os países. O problema é que, para além das manchetes, pouco ficou de concreto.
Temas centrais para a relação entre os países, como o avanço do crime organizado na América Latina, o fortalecimento de facções brasileiras com conexões internacionais e as tensões comerciais envolvendo tarifas e insegurança regulatória, seguiram sem respostas.
A coletiva de imprensa foi vaga, sem definições ou anúncios relevantes. Nem mesmo houve uma divulgação oficial das fotos da reunião pela Casa Branca, e jornalistas relataram que o caráter discreto do encontro teria ocorrido a pedido do próprio governo Lula. No fim, a reunião parece menos uma mudança de direção e mais um band-aid em uma crise diplomática construída ao longo do próprio mandato.
Três horas de reunião certamente não mudarão a postura de Donald Trump, como disse Lula, e muito menos reconstruirão uma relação diplomática desgastada ao longo dos últimos anos. Mas talvez seja a primeira vez que vemos um governante brasileiro ir aos Estados Unidos e voltar com menos prestígio político do que tinha antes. Enquanto Dom Pedro II voltou para o Brasil com votos até dos americanos, Lula conseguiu perder votos dos próprios brasileiros.