Violência urbana espanta brasileiros e motiva migração para o exterior. (Foto: Steve Buissinne/Pixabay)

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O recepcionista do hotel em Amarante, no norte de Portugal, na intenção de ser amistoso, ao ver meu endereço, perguntou: “Em Brasília também é perigoso?” Expliquei que não, pelos padrões brasileiros, mas muito perigosa pelos padrões portugueses. Falei em capitais estaduais, que são bem mais perigosas, mas não era necessário. Ele convive com brasileiros que trabalham em boa parte no ramo hoteleiro de Portugal, e contam por que vieram viver em terras lusitanas. Sempre é para fugir do perigo por que já passaram no Brasil.

O diálogo coincide com a divulgação de uma pesquisa Datafolha no Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostrando que quase 70 milhões de brasileiros já tiveram contato com o crime; que 41% das mulheres e 30% dos homens já não saem à noite por medo. Que o maior pavor é com vigarices digitais, assalto a mão armada e receber um tiro na rua. 82% das mulheres temem agressão sexual. Imaginem o pavor dos pais em relação às crianças.

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Há dias, em Lisboa, encontrei um casal de Fortaleza que se mudou para Portugal depois de um caso de sequestro com assassinato. Contaram-me que seus filhos pequenos estão aprendendo a andar na rua pela primeira vez, para irem à escola sozinhos – como todos íamos na minha geração. As crianças tiveram de perder o medo de andar na calçada, brincar no parque público. No mesmo dia, recebíamos amigos e, quando eles saíram, vimos que havia uma mochila do lado de fora da porta. A arrumadeira, que trabalharia no dia seguinte, não quis nos perturbar, e deixou lá a mochila. Já estava acostumada com a segurança de seu novo país, depois de ter deixado Pernambuco após o quinto assalto. 

O vizinho que me visitava às vezes divide comigo um café ou uma imperial no quiosque da esquina. Certa vez deixou por lá a carteira, com dinheiro e cartões. Ninguém levou. O mesmo aconteceu com uma sacola de compras que minha mulher deixou na calçada, diante do Museu Fernando Pessoa. Só lembrou quando tomávamos café numa mesa de calçada, sobre a qual ficam nossos celulares, enquanto passa muita gente de bicicleta rente às mesas. Ela foi lá buscar a sacola, deitada no mesmo lugar onde a deixara. Lisboa tem poucas garagens nos prédios centenários. Os carros ficam na rua. Carros arrombados ou vidros quebrados são exceção.

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Como viram, fiz também a minha pesquisa e lamento constatar que o medo de brasileiros no Brasil é de outros brasileiros. Inclusive daqueles que a Itália classifica como máfia e os americanos, como terroristas narcotraficantes. Os governantes usam a palavra soberania, mas as organizações criminosas exercem domínio em rios e pistas aéreas da Amazônia e em áreas do Rio de Janeiro e outras cidades. O Estado brasileiro desrespeita a Constituição, que estabelece que segurança pública é dever do estado. A Constituição acrescenta que é responsabilidade de todos, mas o Estado tudo faz para impedir que as pessoas se protejam convenientemente. Pelo que vejo em Portugal, a proteção que conseguem é a barreira do Oceano Atlântico.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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