Venda fracionada de GLP não faz sentido, diz Zylbersztajn
Especialista avalia mudanças estudadas pela ANP nas regras do GLP e aponta riscos de segurança e expansão da criminalidade
A ANP (Agência Nacional do Petróleo) estuda mudanças históricas nas regras de comercialização do gás de cozinha. Entre as alterações em discussão estão a permissão para recarga parcial de botijões e a autorização para que uma empresa possa encher recipientes de outras marcas. Ambas as práticas são atualmente proibidas.
O gás de cozinha está presente em cerca de 90% dos lares brasileiros, o que torna o tema de grande relevância social. David Zylbersztajn, colunista da CNN Infra, avaliou as possíveis implicações dessas mudanças e se mostrou cético quanto aos benefícios reais para o consumidor.
Proposta não é nova e já foi amplamente debatida
Zylbersztajn destacou que a discussão sobre alterações nas regras do GLP não é recente.
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Publicado em 2026-06-06 10:03:41"Há 20 anos ou mais, essa questão do GLP, do gás de botijão, já era um dos grandes desafios", afirmou. Ele explicou que o botijão de 13 quilos, o mais comum nos lares brasileiros, é o foco das mudanças propostas, e que existem mais de 100 milhões de botijões espalhados pelo país.
Para o especialista, o fracionamento do gás — ou seja, a venda de quantidades parciais do botijão — não faz sentido do ponto de vista econômico.
"Não faz sentido comprar o gás fracionado. Seria muito melhor ter programas de atendimento, principalmente para as classes menos favorecidas economicamente, para que a pessoa receba sempre um botijão cheio", argumentou Zylbersztajn.
Riscos de segurança e logística
Além da questão econômica, Zylbersztajn apontou preocupações significativas relacionadas à segurança e à logística. Segundo ele, o GLP é mantido sob alta pressão e exige manuseio técnico criterioso.
A identificação do fabricante no botijão, prática atual, oferece uma camada de segurança ao consumidor que poderia ser comprometida com as mudanças. "Hoje os botijões vêm com a marca da empresa envasadora. Isso te dá mais segurança em termos de quem está te fornecendo e, principalmente, a qualidade do botijão", explicou.
O especialista também alertou para o aumento da movimentação logística que o fracionamento exigiria. Uma pessoa que usa um botijão por mês passaria a realizar trocas mais frequentes, demandando uma infraestrutura de enchimento que, segundo ele, simplesmente não existe no momento. "Você teria que fazer uma estrutura nova", pontuou.
Criminalidade no setor preocupa
Um dos pontos mais críticos levantados por Zylbersztajn diz respeito à infiltração do crime organizado no comércio de GLP.
Ele afirmou que milícias já utilizam o setor como forma de coerção, obrigando consumidores a comprar gás de fornecedores específicos. Na sua avaliação, ampliar a capilaridade do setor por meio do fracionamento agravaria esse problema. "Eu acho que esse modelo vai favorecer muito a expansão da criminalidade", declarou.
Zylbersztajn concluiu que, com base em sua experiência e em análises anteriores, não identifica quem se beneficiaria efetivamente com as mudanças.
"O consumidor não vai se beneficiar no final das contas, porque ele vai ter menos segurança em relação ao botijão", afirmou. Para ele, seria mais eficaz combater o crime no setor da forma como ele se apresenta hoje e fortalecer os programas sociais de transferência de renda voltados ao acesso ao gás.