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O caos institucional está instaurado. Opositores foram presos por se manifestarem, há parlamentares exilados e até jornais foram censurados. O Supremo Tribunal Federal está sendo aparelhado pelo presidente. Mas o Congresso, ainda que muitas vezes tímido, travou um feito histórico: um ministro foi barrado na sabatina.
Um não, foram cinco. Todos de uma vez, entre eles um médico, um general e o diretor dos Correios. Foi assim que ficou marcada parte do governo do Marechal Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro, o segundo presidente da República Federativa do Brasil. Isso foi em 1894, e esse momento nos conecta diretamente com 2026.
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Publicado em 2026-05-06 12:24:05Cento e trinta e dois anos depois, tivemos o sexto postulante a ministro da Suprema Corte barrado pelo Senado da República. E, ainda, no dia seguinte, o Congresso derrubou o veto presidencial ao PL da Dosimetria. Dois golpes de resistência em quarenta e oito horas. Mas por que isso surpreende tanto? Um fenômeno da natureza ajuda a explicar.
Simbiose é uma associação íntima e duradoura entre organismos de espécies diferentes, benéfica para ambos ou apenas para um. Pense na rêmora e no tubarão: a rêmora gruda, come os restos e limpa os parasitas, enquanto o tubarão a guia e a protege. Nos últimos anos, assistimos exatamente a essa relação entre o Supremo Tribunal Federal e o projeto do Partido dos Trabalhadores.
O dream team foi montado: o amigo pessoal e advogado que tirou o presidente da cadeia; o ministro que se orgulha de ser "comunista, graças a Deus"; o patrono dos habeas corpus, campeão em dar entrevistas e anfitrião do Gilmarpalooza; a ministra que nos acusa de sermos "200 milhões de pequenos tiranos"; e o ministro cuja esposa tem contrato de R$ 129 milhões com Vorcaro e nem assim “conseguiu bloquear”.
Juntos, parecem ser uma equipe invencível: eles blindam uns aos outros, criam e protegem inquéritos para silenciar opositores, derrubam decisões do parlamento, prendem críticos e até tornam o maior rival político de Lula inelegível. E, para o projeto ficar perfeito, faltava apenas mais um soldado, um "Messias".
Foram meses de articulação: encontros, promessas e até R$ 12 bilhões em emendas liberadas às vésperas da votação. Todos diziam o mesmo, inclusive os próprios senadores que entrevistei aqui no Café com a Gazeta: o jogo estava perdido, Messias seria aprovado. E não foi: por 42 a 34 votos, o Senado rejeitou a indicação e nos deu um sopro de esperança.
Um sopro que durou mais 48 horas, confirmado com a derrubada do veto ao PL da Dosimetria. Vale relembrar: o STF condenou opositores, manteve Bolsonaro inelegível e preso em casa. Sem entrevistas, sem redes sociais, sem motociatas, Bolsonaro transferiu seu capital político quase que integralmente para o filho.
A pressão aumentou, e Lula, confirmando a simbiose, vetou o alívio aprovado pelo Congresso e manteve seus opositores condenados. O Congresso derrubou o veto e mostrou que o poder Legislativo ainda tem voz.
É pouco, é claro que é pouco. Quatro milhões de aposentados tiveram seu dinheiro roubado, e o STF bloqueou a CPMI que investigava o caso. Jornalistas estão exilados, perfis foram derrubados, passaportes cancelados, contas bancárias bloqueadas, tudo por decisão judicial sigilosa, sem denúncia formal.
Romeu Zema fez fantoches satirizando ministros e corre o risco de ser incluído no inquérito do fim do mundo. Brasília segue sendo o trono dos ministros; e a Papuda e a Colmeia, o trono dos opositores.
VEJA TAMBÉM:
A dosimetria não traz liberdade para quem nunca cometeu um crime. Mas esse é um sopro, uma faísca. O sinal de que rêmora nenhuma nada para sempre nas costas do mesmo tubarão
E isso tudo, em ano de eleição, nos mostra que a política tem um custo alto. Ela cansa, frustra e, às vezes, nos faz sentir ingênuos por ainda acreditarmos que este país pode ser diferente. Mas acreditar não é ingenuidade, é o único caminho.
Se há 132 anos um Congresso tímido barrou cinco ministros de uma vez, por que não sonhar com um impeachment agora? Um não, cinco, quem sabe. Defender valores vale a pena, não desistir vale a pena. É por isso que estreio esta coluna aqui na Gazeta do Povo com uma convicção: ventos de liberdade estão soprando em Brasília. E o Brasil vai dar certo.